Mostrar mensagens com a etiqueta Férias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Férias. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Viagens de comboio III

Viajar de comboio permite uma maior liberdade de movimentação. Podemos ir à casa de banho. Podemos esticar as pernas levantando-nos. Podemos ir à carruagem onde está o bar. Podemos ir deitados se houver espaço. Podemos levar um computador portátil e usá-lo nas mesas ou nas prateleiras amovíveis.

Existe um mundo de possibilidades de se conhecerem pessoas. Já apanhei famílias de regresso ou a ir de férias como nós. Pessoas sozinhas. Casais. Pessoas que iam para o funeral de algum familiar. Pessoas que iam visitar filhos, pais, amigos. Pessoas que passam uma parte da semana numa terra e a restante na outra.

Fui uma vez a conversar com uma brasileira (sim, muito de vez em quando lá consigo socializar, mas desta vez foi porque a minha mãe começou a falar com ela primeiro) que trabalhava uma parte da semana na região de Lisboa e ia regressa para o Algarve onde estava o marido e o filho.

Regressámos uma vez a Lisboa na companhia de um senhor aficionado pela filatelia e numismática. A conversa não pôde ser continua porque o meu pai estava num dia mau e começava a implicar com o homem.

Apanhámos uma mãe e filho dos Açores que vieram às olimpiadas da matemática no Algarve.

Apanhámos muitos estrangeiros de diversas nacionalidades e alimentações diferentes.

Fosse eu mais sociável e teria muitas mais histórias para contar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Viagens de comboio II

Uma das viagens mais assustadoras que tive foi há muitos anos, quando ainda o comboio separava-se em Tunes. Havia muita gente nas carruagens para Lagos e por isso fomos para as outras carruagens. Lá conseguimos lugares. Do outro lado do corredor ia uma grupo de rapazes, tropas, talvez, já não me lembro bem. O que me ficou na memória foi o terror que esse rapazes me causaram. Durante a viagem fumaram algo que os meus pais sussurravam ser droga (charro ou erva). Tive medo que a droga lhes dessa para nos fazerem mal. Vi passarem o cigarro de mão e mão. Em criança tive uma educação muito anti-drogas e tabaco. As coisas que eu lia nos livros escolares também vieram reforçar esse medo. Como eu não compreendia o que estava a passar-se tive medo.

Uma viagem dessas da meia noite foi o prenúncio de algo que iria mudar a nossa vida familiar. O meu pai costumava comprar azeite num lagar nos arredores de Lisboa. Era o único azeite que gostava. Por isso quando íamos de férias levávamos desse azeite. Durante uma época larga o meu avô paterno passava um mês na nossa casa a cada quatro meses. Íamos para o Algarve para levá-lo ao filho seguinte e começarmos as férias. O meu avô já na casa dos noventa anos era brincalhão. Teve a infeliz ideia de tomar o peso de um saco onde ia o garrafão de plástico com o azeite. Deixou-o cair e partiu o garrafão espalhando o azeite pelo chão da carruagem. Uma vergonha e medo de multa. Uns turistas que viajavam deitados no chão dentro de sacos cama, como era habitual ver, tiveram que levantar-se. O cheiro a azeite dominava. Ora superstição ou não o que é certo nessas férias várias contrariedades aconteceram incluindo o quase afogamento do meu pai na Meia Praia, que ditou o fim os meus tempos de banhista (história para outro texto).

Bem mais recente foi a vez em que em Tunes o meu pai quis ir à casa de banho. O comboio por vezes demorava (de ano para ano os horário mudam e muitas vezes não é acautelado o tempo entre um e outro comboio) e naquele dia o horário dizia que tínhamos que esperar uns trinta minutos. No estado em que o meu pai está não convém fazê-lo esperar muito. Por isso lá fui com ele à casa de banho. O problema foi que eu não sabia como funcionam as casas de banho em que se mete uma moeda para entrar. Aproveitei que estava a sair um homem e fiz o meu pai entrar na expectativa de manter a porta aberta. Eu cheguei a pôr a moeda. Mal o meu pai entrou a porta fechou-se e iniciou-se a lavagem automática da casa de banho. O meu pai começou aos gritos lá dentro. Eu cá fora não conseguia abrir a porta. Percebi o que estava a acontecer. Tive medo que algum químico para limpeza lhe fizesse mal. No fim o resultado foi mais benigno, o meu pai ficou com as calças dos bolsos para baixo molhadas, mas não muito. E jurei para nunca mais usar destas casas de banho.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mentalidade de segunda classe

Desta vez quando fomos para o Algarve optámos que ir no comboio Alfa Pendular. Ele parte do Oriente à oito e quarenta enquanto que o Intercidades parte à dez e vinte. Assim a chegada a Lagos seria por volta do meio-dia e meia. Bem mais cedo que outra opção.

Por isso fomos no Alfa. Ora uma advertência para quem queira andar de comboio em Agosto para o Algarve: arrisca-se a não ter bilhete. Quando cheguei à bilheteira já não havia bilhetes para a classe turística (segunda classe no outros comboios). Lá tive que ir na classe conforto.

Esta foi a segunda vez que andei no Alfa. Da primeira viemos do Porto e foi em classe turística. Viajar na conforto foi uma experiência algo humilhante para mim. Porquê? Porque sou muito tímido e não tive coragem para fazer perguntas. A classe conforto caracteriza-se pelo conforto das instalações, mas também pela atenção prestada pelos comissários de bordo aos passageiros. Bem os vi a distribuir jornais e revistas, café e água. Perguntaram se queríamos o pequeno-almoço. E onde está a humilhação? Na minha vergonha em perguntar se aquilo tudo estava incluído no bilhete, bem puxado por sinal, ou era pago à parte.

Pelo que percebi por ver as outras pessoas, acho que era de graça. Podia ter bebido um descafeinado se houvesse e ter escolhido uma revista para minha mãe e um jornal para mim (apesar de não ser apreciado de jornais).

Não sou uma pessoa ousada. Tenho mentalidade de viajante de segunda classe em nada é de graça e se desconfia quando alguém dá alguma coisa. Esta timidez dá cabo de mim...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Burrinhos

Perto do final das minhas férias fiz este pequeno vídeo de uns burros que encontrei na estrada entre Barão de São João e Bensafrim, em Lagos. Fiz algumas vezes este percurso a pé e reparei nestes burrinhos agitados. Sempre que eu me aproximavam eles agitavam-se.


O que acho é que o dono deles deixou-os ali durante muito tempo. No dia da filmagem o primeiro burro que aparece no vídeo ainda tinha erva dentro do raio de alcance da corda que o prende. Uns dias depois, passei por lá de autocarro e já havia um círculo bem definido.


O comportamento deles faz-me lembrar no felinos dos jardins zoológicos presos em jaulas andando de um lado para o outro. Tenho pena destes animais (felinos e burrinhos).







Uns metros à frente encontrei este burro com um comportamento mais conforme com o habitual.





Eu gosto destes animais. O meu avô paterno teve uma burrinha, cheguei a andar nela, a cair dela (por o meu avô dar-lhe uma palmada com ela presa airando-me ao chão) e enfurecê-la ao ponto de querer dar-me um coice.

Se um dia tiver possibilidades, irei ter um burrinho. É mais certo ter um do que ter um carro...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Voltei

Pois é, finalmente regressei das férias daqui, do mundo virtual (amanhã volto ao trabalho). E começo já por aí. Eu tinha a intenção de vir ver o blog e o mail pelo menos duas vezes, mas o cibercafé onde costumava ir mudou de política e agora pede consumo pelo acesso à net, que por usa vez é pago. Eu pensei cá com os meus botões que era um abuso e que não estava a ressacar tanto assim para consumir, nem que fosse um descafeinado. Já que estava de férias e então seriam mesmo férias da internet também.

E fiz bem. O blog só tinha dois comentários para publicar (obrigado por eles). No mail não havia nada de especial ou urgente. Nos jogos (cantr II e Hattrick) correu tudo bem. No cantr nenhuma personagem morreu e no Hattrick mesmo sem fazer equipas consegui vitórias totalmente inesperadas nos jogos de seniores. Ainda não vi a academia.

Ainda no que diz respeito à net não tive ainda tempo para ler os blogs que sigo e actualizar-me sobre o que se passa ou passou pela blogsfera. Se calhar vou precisar de férias para descansar do regresso de férias.

Nos últimos dias tenho pensado no que dizer nesta primeira publicação. E chegado o momento começo a ficar sem ideias sobre o que dizer. Estranho, não? Enfim, as férias correram mais ou menos como esperado. Tive tempo para me aborrecer com as questões familiares (o meu pai e o desgaste da minha mãe); tive tempo para caminhar um pouco; rezar ou simplesmente estar disponível para Deus; li poesia; escrevi um pouco à mão (não levei o portátil) num projecto que estava parado; escrevi poucos conjuntos de versos (embora um seja bem longo, estejam atentos à colónia blog aqui ao lado); vi muitos episódios da série Ossos que está a dar na rtp2 ao início da tarde; e ouvi muito o último disco dos Arcade Fire (escrevo neste momento ao som deles), que comprei na véspera de ir para baixo juntamente com os dois últimos cds dos Muse (também ouvi bastante), ouvi muito Metallica também.

E para texto de regresso já escrevi bastante, mas acreditem que não devo ter muito mais para dizer, pelo menos de interessante.

domingo, 22 de agosto de 2010

Nostalgia de Deus III

43 (42)

1*Faz-me justiça, ó Deus,
e defende a minha causa contra a gente sem piedade!
Livra-me do homem mentiroso e perverso.


Como tenho sede! Como tenho sede, estou mais debilitado. Senhor, mesmo que não possa desde já contemplar o Teu rosto, como gostaria, fortalece-me contra os meu inimigos. Meus inimigos que vivem dentro de mim, forças, tendências, que me levam a fazer o que não quero. Livra-me do eu mentiroso e perverso. Tenho sede, mas não quero usar isso para justificar-me, meu Deus.


2*Tu, ó Deus, és o meu refúgio. Porque me rejeitaste?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?

Tu és o meu marco milenar, farol em costa deserta. Quando sinto saudades de Ti, concentro-me nesta sede e faço dela oração. Rejeito este sentimento de rejeição. Sei, acredito, sei que és a minha segurança. A minha fraqueza leva-me à tristeza e ao medo. O meu maior inimigo sou eu quando me esqueço desta sede.


3Envia a tua luz e a tua verdade,
para que elas me guiem e conduzam
à tua montanha santa, à tua morada.


Aqui estou de cabeça baixa, prostrado, esperando por Ti. Vivo num mar agitado de ondas de alegria e tristeza. De sede e esquecimento. Envia o Teu Santo Espírito para me fortalecer e encaminhar rumo a Ti. Minha fonte de água viva.


4Eu irei ao altar de Deus,
ao Deus que é a alegria da minha vida.
Ao som da harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus.

Sei e acredito que a minha hora chegará. Minha sede será saciada. Isso dá-me forças e alegra. Haverá festa. Um vitelo gordo será preparado para todos, um anel ser-me-á posto no dedo e roupas limpas cairão sobre este corpo cansado de caminhar, penar e cair. Eu que não sei cantar, cantarei só para Ti. Porque a minha sede será saciada. Sei.


5Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.


Porque te entristeces alma minha? Se sabes que Ele nos espera, se sabes e acreditas, porque te perturbas?
Força.
Fortalece-te com esta sede.
Fortalece-te com este desejo.
Sê luz e esperança.
Caminha.
Caminha.

domingo, 15 de agosto de 2010

Nostalgia de Deus II

Continuação do Salmo 42 (41)


7A minha alma está abatida:
por isso, penso muito em ti,
desde as terras do Jordão e dos montes Hermon e Miçar.

Longo caminho tenho que andar até chegar ao Teu oasis. Longo, longo, minha alma entristece-se. Tenho sede e raramente chego a Ti, raramente Tua sombra dá-me descanso neste sol de meio-dia. Penso em Ti e sinto saudades dos breves momentos que partilhámos juntos. Tão lá para trás!


8*De abismo em abismo ressoa
o fragor das águas revoltas;
as tuas vagas e torrentes passaram sobre mim.

Oh, como és grande! Tanto que mal te vejo. Sei que estou dentro de Ti, mas tudo me parece um sonho, uma miragem causada pela sede e por este sol de meio-dia. Esta sede avassala-me ou serás Tu? De abismo em abismo o som das águas chega a mim, mas elas, mas elas não. Aqui estou e Tu escondes-Te por trás da luz que me encadeia.


9Durante o dia, o SENHOR há-de enviar-me os seus favores,
para que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.

Mesmo que os meus sentidos ainda corrompidos não Te vejam, sei, acredito, sei que Tu olhas por mim. Sei, acredito, sei que envias o Teu Espírito para fortalecer o meu caminhar, para guiar-me e não entrar em sendas errantes. O teu Espírito fortalece-me, mesmo que a minha mente e coração não o sintam, mas quando ao deitar estou feliz, alegre, jubiloso, é para Ti que endereço tudo, mesmo que o coração não saiba e a mente não diga.


10Quero dizer a Deus: "Tu és o meu protector,
porque te esqueces de mim?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?"


É nesses momentos de alegria que Te agradeço tudo, tudo o que recebo de bom e de mau. A alegria e a tristeza. E canto com o grilo na sua toca. E canto o descanso da noite. Por vezes a noite é mais forte, o sono arrasta-me para terrenos de pedras aguçadas. Rasgam-me a pele e a sede é maior. De estás do meu lado, porquê estes sonhos maus? O sonho é o nocturno reflexo real da irrealidade do dia. Por vezes a sede diz-me que Tu me esqueceste, meu Deus.


11Quebram-se os meus ossos,
quando os inimigos me insultam
e repetem a toda a hora:
"Onde está o teu Deus?"

E voltam os pesadelos, as dores. Eu sofro com esta sede e há quem não Te queira. Como é possível? Minhas entranhas revoltam-se. Uns tudo têm, não sentem esta sede e eu aqui, mendigando, arrastando-me por esta estrada de aguçadas pedras e vidros em vez de areia. O seu desprezo por Ti magoa-me. É como se dissessem: tens essa sede toda porque queres, só há vazio, sacia-te nos mesmo que nós.


12Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.

Mas eu sei, acredito, sei de saber aprendido e vivido que Tu és o meu Senhor. Que Tu és a minha água. Por isso, alegra-te minha alma que a tua água chegará. Hei-de beber tuda quanta quiser e depois nadar, nadar no oceano do Teu Amor. Não mais terei sede. Meu Amor!

domingo, 8 de agosto de 2010

Nostalgia de Deus I

Nota prévia: Nestes dias de férias longe da net, deixo-vos a minha visão sobre um dos salmos que mais gosto. Os salmos 42 e 43 formam na realidade um só, pois a temática é comum e, caso único no saltério, há um refrão, um versículo que se repete duas vezes.


42 (41) NOSTALGIA DE DEUS

1Ao director do coro. Poema dos filhos de Coré.

2*Como suspira a corça pelas águas correntes,
assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.

Na Palestina a geografia é agreste, há zonas de deserto. Imagina-se a sede da corça, talvez esteja a amamentar, é assim que o salmista se sente. Quanto mais me dou, mais sede tenho.


3*A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!
Quando poderei contemplar a face de Deus?


Sou um deserto, busco-Te, e por mais orações, missas e livros que entrem na minha vida, sinto um vazio, uma sede infinitos. Onde estás, Senhor? Preciso de Ti. Acendeste esta sede e agora onde estás? Quero-Te a Ti. Não tardes!


4*Dia e noite as lágrimas são o meu alimento,
porque a toda a hora me perguntam:
"Onde está o teu Deus?"


Onde está Ele, perguntam-me. Esta sede é uma sombra que me acompanha. Nada posso, pois sou todo Dele. Anseio por Ele. E não me compreendem. Porquê? Porque a imagem que têm de Deus é limitada. O vêem, o que tocam, o que compreendem é o seu deus. Sofro porque afastam-se Dele. Sofro porque sentem esta sede e querem saciá-la com terra, lama e pus.


5A minha alma estremece ao recordar
quando passava em cortejo para a Casa do Senhor,
entre vozes de alegria e de louvor
da multidão em festa.


Mas Ele já me tocou, já deu a cheirar o seu perfume inigualável. É por isso que tenho sede. Saudade daqueles momentos. Tão poucos. Agora sei que pouco de mim esteve ali. Dei-me tão pouco e a sede fica maior ao compreender isso. Meu Deus, que festa faria se Te voltasse a encontrar! É por isso que à vezes vou em festa à Tua casa. Quando a sede é maior e sinto uma gota, uma pequena gota, a tocar-me nos lábios.


6Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.


E canto com as aves. E canto com a brisa da manhã nestes dias estivais. Canto com as árvores que se fortificam e escurecem suas folhas, cheias de vida. Canto com a seiva que corre, com o calor que tudo madura e faz chegar ao zénite da sua existência. Tu és o meu Deus e Salvador. Tenho sede, mas sei que serei saciado. É esta a minha esperança e força.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Livro para as férias

Estou quase a ir de férias. No meu caso ir de férias costuma ser um drama. Ter que sair da minha casa, enfrentar a viagem de comboio com as bagagens, o gato, as fita que o meu pai poderá fazer. É um stress.

Por outro lado, a nossa casa de férias é minúscula, vou estar em maior contacto com o meu pai e sujeito às suas traquinices que costumas ficar marcadas na pele e músculo. Terá que haver uma redefinição dos espaços. Toda essa adaptação leva tempo e tem o preço de mais nervos. Não poderei andar livremente pelos campos porque a minha mãe tem medo que alguém ou anima me faça mal.

Assim sendo, férias, férias seria se eu fizesse férias da minha família. Do trabalho poucas férias preciso, é mais da família, e isso não poderei ter naturalmente. Até me custa pensar na eventualidade de um dia viver sem eles. O que vai ser de mim?

As mudemos de assunto, pois o que me levou a escrever não é nada triste. No sábado passado comprei um livro que espero levar para ler nas férias. Tive muito sorte ou foi Deus que me encaminhou até ele.

Nos últimos tempos tenho adquirido alguma curiosidade pelo padre José Tolentino Mendonça. Um eminente teólogo, que também é poeta, escritor. Queria conhecer a sua poesia e por isso tinha o nome dele arquivado na minha memória para uma ida à Fanc. Estava a sair da secção dos livros quando dei de caras com o livro A Noite Abre Meus Olhos.



Este livro é a compilação num só livro dos primeiros livros de poesia dele. Um bolo com uma cereja no topo. De uma assentada fico com uma parte considerável da sua obra e com muita poesia espiritualmente inspirada. Para além de ser em formato de bolso, o que ma dá a garantia de poder levá-lo junto com a Bíblia, cadernos para escrever e livrinhos de orações.

A minha relação com a poesia é complicada. Tenho dificuldade em lê-la, porque por norma entendo pouco o que ela diz. Desde a escola que tenho essa dificuldade. Quando me pediam para analisar um poema era um custo. Convenci-me que sou muito linear nas interpretações que faço. Actualmente acho que o mal foi o sistema de ensino, o azar que tive em ter professores que não nos ensinaram a sermos criativos e imaginativos. A disciplina de Português devia ser dividida em duas partes: uma seria a técnica da língua e a outra a descoberta do prazer de ler. Ler poemas devia ser ocasião para os alunos aprenderem a usar a língua como veículo para a liberdade.

Foi preciso eu sair da escola para aprender a gostar de ler poemas e começar a escrever, tanto em verso como em prosa. Escrevi muita rima, não me atrevo a chamar poesia àquilo, como pode ser verificado na colónia deste reino. Escrevi por muito tempo para exorcizar as minhas tristezas, para passar da adolescência para o estado adulto. Agora raramente escrevo versos.

Voltando ao livro que pretendo ler nas férias, se tiver silêncio interior para tal. Quando regressava a casa depois de comprar o livro, li o primeiro poema e achei que o devia deixar aqui para vosso proveito.

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um túmulo
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Livros abandonados

Nesta semana e na próxima estarei a gozar um período de descanso no emprego à conta das horas extra que trabalhei e não me foram pagas. Não tenho grandes planos para estes dias, excepto caminhar antes do almoço e escrever de tarde ou noite.

Hoje fui fazer a tal caminhada. Foi uma hora bem andada, devo ter andado mais de cinco quilómetros. Gostei. O dia estava agradável para caminhadas.

Já perto de casa, talvez a um quilómetro, encontrei espalhados no passeio uns sete ou oito livros. Alguns já tinham as capas descoladas do corpo e estavam alguns molhados. Para meu espanto estava à vista um livro que me fez parar, era o Livro de Cesário Verde. Como é possível alguém deitar fora este livro?

É claro que o trouxe comigo. Tenho um livro com alguns poemas dele, mas não o compêndio de todos, ou quase todos. Trouxe outro, também. É um Compêndio de Filosofia. Este livro foi um livro escolar. No interior vem a dizer que era para o 6º e 7º anos. A data de impressão é de 1970.

No chão ficaram dois ou três livros de Inglês, não percebi bem, um sobre transacções bancário e outro sobre sexualidade. Todos livros escolares, ao que me pareceu. Não me lembro se havia mais algum.

Agora estou arrependido de não ter fixado o nome da dona de um deles. Esse tinha o nome da proprietária. O Compêndio tem uma rubrica, mas não consigo identificar o que significa. Ele foi um livro de estudo pois está sublinhado e há uma ou outra anotação, sobretudo no início do livro, correspondendo ao 6º ano. O Livro de Cesário Verde tem uma nota à edição de 1977. Não faço ideia se no final da década de setenta ainda havia 6º e 7º anos, correspondendo aos actuais 10º e 11º anos. Se ainda era a denominação antiga, então poderão ter pertencido ao mesmo estudante.

Desde que trouxe os livros tenho estado a imaginar a história deles. Um foi manuseado há mais de trinta anos, o Compêndio, cheira a biblioteca. Terá ficado numa prateleira este tempo todo. O Livro de Cesário Verde tem um cheiro agradável, quase perfume, talvez tenha estado também numa biblioteca, mas como veio parar à rua? Outra curiosidade deste livro de poemas é que parece que não foi lido, as folhas não estão muito separadas junto à lombada.

O que terá acontecido? O dono morreu e estes livros estavam fora da biblioteca e acabaram no lixo? Quem estudou neles deve estar entre os quarenta e os cinquenta anos. Terá deixado estes livros na casa dos pais e agora que eles morreram ou foram para um lar, a casa foi desocupada indo estes livros parar à rua? Um divórcio?

Se estes livros vieram para a rua, foi porque algo mudou na vida do dono. Mudança de casa. Morte do próprio ou dos depositários. Separação de casal e alguns restos ficaram para trás. Livros que passaram de pais para filhos e estes agora desfizeram-se deles...

O mais grave dos abandonos é o de pessoas, crianças no topo, depois vem os animais e de seguida os livros. Como é possível alguém deitar fora livros? Mesmo escolares. Há bibliotecas capazes de os receber. Este acto de abandono também reflecte um pouco a mentalidade de quem o fez.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Falta de sacerdotes

Nestas férias tive oportunidade de constatar a sorte que tenho em viver numa cidade.

Na aldeia onde estive existe uma igreja e apesar de tudo todos os domingos celebra-se a Eucaristia. No entanto isso parecendo serviço mínimo é o máximo que há. No dia 15, Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, sábado, não houve celebração. Estive pensar porquê e cheguei à conclusão que sendo num sábado não foi possível. É que o pároco é responsável por mais cinco paróquias. Imagino que tenha todos os fins-de-semana muito cheios. Se tivesse sido na sexta ou noutro dia teríamos tido celebração. Assim não houve. Fiquei triste.

sábado, 22 de agosto de 2009

Voltei

Como bem podem ler no título: voltei. Não levei o portátil (não foi possível) e só fui ao cibercafé duas vezes (meia hora cada) nestas três semanas. Foi mesmo um período de “desintoxicação”.

Como correram as minhas férias? Acabaram por correr bem. Não houve problemas de saúde e por isso já posso agradecer a Deus. O mal é sempre o antes, o durante melhorar sempre.

Na primeira semana o tempo andou ameno, algum vento. Tive que resolver um problema de canalização na cozinha, no lava-louças. Na segunda comprei umas carpetes que facilitaram muito a limpeza da casa. Suei as estopinhas com o calor, a casa apanha sol desde o alvorecer até meio da tarde e a ventilação praticamente não existe. Na terceira semana continuei a suar e a sentir pena de ir embora. Enfim sou muito inconstante.

Não levei nenhum livro excepto a Bíblia. A televisão foi tendo algum interesse na Volta a Portugal em Bicicleta e agora no Campeonato de Atletismo. À noite via invariavelmente a rtp2 a partir das dez e meia até à meia noite. O que valeu nas horas mortas e de tédio foi o leitor de mp3.

O que fiz neste tempo? Para além das actividades domésticas, passeei um pouco, fiz algumas filmagens (nos próximos tempos irei publicar aqui algumas coisas), escrevi num caderno e pensei um pouco nos meus projectos (e para mal dos meus pecados imaginei outros novos projectos para me ocuparem ainda mais os meus poucos tempos livres).

O que correu mal? Tive pouco sossego para rezar, para estar com Deus. Em casa é impossível pois o meu pai estava sempre por perto. Na rua não encontrei nenhum local que me agradasse.

Estou de volta, espero que com mais energia e criatividade.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ir de férias, o drama, o horror, a tragédia, o exagero

Estou na iminência de ir de férias. Tenho-as marcadas para segunda-feira, mas como posso usufruir um dia de descanso por horas extra trabalhadas começo já amanhã. Medo.

Medo porquê? Porque sou anormal. Porque me preocupo em demasia com o trabalho que devia fazer nestes dias e não vou fazer. (até parece que carrego a empresa às costas! assim se vê a minha anormalidade).

Por outro lado preocupo-me com a viagem que vou fazer para a terra do meu pai. Nós não temos carro. Tenho carta, mas nunca conduzi depois do exame final. Tinha carta, mas morava na Baixa e era muito difícil estacionar na zona. Por outro lado não gostei da experiência de condução. Também na altura não necessitava de conduzir. O tempo passou e agora só quero um carro se trouxer motorista.

A viagem, se o meu pai não tiver algum problema de saúde, será de comboio. Seria agradável (e normalmente acaba por ser) se não tivéssemos o gato para levar, se não tivéssemos que levar a bagagem dividida por mim e a minha mãe, já que o meu pai pouco ou nada ajuda e temos que levar alguma comida para os primeiros dias (não somos pessoas de restaurantes).

Temo encontrar muita confusão no comboio. É chato ter que mudar de comboio em Tunes. Normalmente com esta mudança o gato começa a miar, protestando por o comboio não ter ar condicionado. (o gato gosta de andar de comboio, carro ou camioneta, dá-lhe motivos para miadeira). O gato é mais uma preocupação.

Depois chegando à nossa casa da aldeia, pequena e antiga, começa o meu martírio dos primeiros dias: sofrimento atroz no nariz por cauda do pó. As roupas da cama estão fechadas o ano todo protegidas por naftalina. Normalmente durmo com a cabeça sobre um t-shirt daqui a servir de fronha e com o nariz tapado por um lenço. Estou a pensar usar este ano uma máscara.

Por fim, a quebra de rotina, do conforto daqui. Costumo pensar que quando vou para lá é como ir acampar. A casa é pequenina, com uma casa de banho feita às três pancadas.

Lá terei que caiar a porcaria das paredes. Não poderei passear o que queria porque a minha mãe tem medo que a trás de cada árvore esteja um malfeitor à espera que eu passe ou um bicho tipo lobo que não há, tigre que não há, lince que está extinto e é inofensivo. Ou cães, que é um perigo real, pois existem por lá muitos e isso também me preocupa. Já não se pode caminhar pelo campo descansado.

Se fico em casa, o meu pai está sempre ao pé de mim. Não posso descansar. Não posso escrever. Não posso ler porque não posso levar livros porque não tenho quatro braços e espaço.

Lá para a segunda semana, já devo começar a apreciar a minha estadia lá e como devo ficar três semanas, talvez goste. Vou certamente sofrer com o sofrimento da minha mãe. Ela vai querer deixar a casa num brinco para ficar fechada mais onze meses. Vai queixar-se, dizer que é o último ano que vai. E eu pergunto-me: porquê que os meus pais compraram a porcaria da casa? Porquê que nunca fomos para u hotel? (sei a resposta a esta pergunta, falta de dinheiro)

Assim sendo vou estar ausente até, provavelmente dia 21 ou 22. Já tenho os textos dos domingos e dia 15 escritos e agendados. Sempre que for à cidade vou tentar ir a um cibercafé e ver os comentários que possam deixar por aqui. Podem demorar a ser publicados, mas serão. E talvez vá dando notícias.

(como podem perceber pelo que ficou dito, não vou poder levar o portátil, ainda é grande e pesado demais).

Adeus até ao meu regresso.

PS: Deixo a recomendação de sintonizarem a Antena3 nesta e na próxima semana à noite para acompanharem a transmissão dos festivais de Paredes de Coura e Sudueste. No site da rádio vão transmitir alguns concertos em exclusivo. É de aproveitar (eu vou tentar ouvir o máximo que puder, talvez me ajude a superar a primeira semana)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Considerações sobre as férias



(Uso este vídeo por causa para palavra holiday, por favor vejam nela, se quiserem, o sentido de férias e não de feriado)

Tenho que confessar que não me sinto como a maioria das pessoas, se é que consigo saber o que os outros sentem, mas pelo menos sinto-me diferente daquilo que vejo as outras pessoas agirem e o que dizem.

Já leram o livro de Hermann Hess “O Lobo da Estepes”? Apesar de gostar muito de felinos, identifico-me mais com este lobo. Há algo em mim que não aceita o comum do relacionamento social. Se não fosse católico, estaria num caminho perigoso anti-social, anarca radical, talvez mesmo em franca autodestruição.

Assim o lobo anda adormecido, mas há momentos em que quase assume o controlo. As férias são um desses momentos. Tenho dificuldade em gostar das férias. Sim, é triste. Tanta gente suspirando por uns dias de férias e vem este aqui dizer que não gosta de gozá-las.

Normalmente quando começo a apreciar estes dias, eles acabam. Isto explica-se bem. Sou um animal de rotinas. Durante o ano inteiro tenho uma rotina, horários e tarefas. Chego as estes dias e tudo muda. Posso acordar mais tarde, mas isso baralha as horas para comer. Isso não seria problema se os meus pais mudassem a rotina deles, o que não acontece.

Nunca tivemos férias fora do nosso ambiente familiar, ou seja em locais alugados. Sempre fomos para casa de família ou para a nossa na terra do meu pai. Isto significa que a minha mãe sempre teve que fazer a comida e cuidar da “lida da casa”. Isto não são férias. Em criança eu não tinha consciência disso. Sofria só com a mudança de rotina. Em adulto sofro ao perceber que eu tenho férias, que mudo de ambiente e rotina, mas ela não, já para não falar da rotina.

Nestes dias estou de férias. Não saímos de Lisboa. Não vale a pena irmos à terra do meu pai, com o gato e tudo, só por uma semana. Para mais que começo a ter dúvidas se o meu pai está em condições para viagens de cinco horas.

Tinha a esperança de passar estes dias escrevendo e passando o tempo, mas surgem sempre coisas para fazer. Uma delas é pintar a casa. Preferia estar no emprego às voltas com as contas e o planos de poupança de custos.

Outra facada no meu coração é perceber que não conseguiria estar o dia todo a escrever. Umas duas horas e vá lá. A porcaria da net está sempre a tentar-me. Passear pela cidade? Tenho pouca vontade, pode haver calor, pode haver chuva, tenho que comer de tantas em tantas horas, mais vale não ir, não gosto de ir sozinho, não gosto de ir acompanhado. Aarrgghhhh...

Conviver com o meu pai também não é fácil. Está sempre a hostilizar-me. Todo o que digo serve de motivo para me chamar mentiroso. As refeições começam a ser difíceis, pois ele mete-se no digo à minha mãe, atribui coisas que ela diz a mim, temos que repetir muitas vezes que houve um avião que caiu no mar e que ninguém sobreviveu, não quer tomar os remédios, não quer beber água, deixa cair comida no chão e diz que somos nós. De manhã não é melhor. Anda perdido pela casa à procura da roupa e diz que a roubei. Não me deixa ajuda-lo a vesti-la. Não posso dizer para beber água, ou chá, nem dar-lhe uma peça de fruta para lanchar (questiona se lavei as mãos e mesmo que vá lavá-las, quando regresso já se esqueceu).

Hoje levantei-me mais tarde do que os dias de trabalho e quando me despachei fui fazer a meia hora de oração com aprendei nas Oficinas de Oração, para mim é melhor que seja de manhã. Nessa hora a minha mãe aproveitou para ir à praça. Pois durante a meia hora, que nas férias poderia ser maior, o meu pai andou da sala para o meu quarto com uma lengalenga, que aprendeu na infância, a meter-se comigo. E pensei, férias para quê? Para andar com os nervos em franja? A minha mãe é um ser humano extraordinário, com uma resistência e paciência memoráveis. Ela aguenta isto vinte e quatro horas por dia, todos os dias.

Quero pedir desculpa a quem teve a paciência de ler isto, mas o meu reino é mesmo muito imperfeito.