Aqui fica a segunda parte da entrevista com a irmã Joana.
http://toquesdedeus.blogspot.com/2009/05/entrevista-joana-parte-ii.html
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sexta-feira, 22 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
Entrevista à irmã Joana I
Hoje deixo aqui a primeira parte da entravista à irmâ Joana, que falei aqui.
Eis o link http://toquesdedeus.blogspot.com/2009/05/entrevista-joana-parte-i.html
Eis o link http://toquesdedeus.blogspot.com/2009/05/entrevista-joana-parte-i.html
sábado, 2 de maio de 2009
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Os meus porquês
Há vários anos que me debato com a dúvida: devia seguir a vida de sacerdócio ou religiosa, ou não? Como já disse, ou penso ter dito anteriormente, acho que já passou a altura para ir por aí. É claro que há histórias de vocações tardias, mas se neste momento alguém me propusesse: vem para o seminário; e teria que recusar.
Começando pela razão mais fácil de dar, digo que os meus pais precisam de mim. O meu pai com Alzheimer, a minha mãe cuidando dele 24 horas sobre 24 e não indo para nova. Ambos estão dependentes de mim, não tanto para lhes ajudar no dia a dia (embora se o meu pai deixasse, eu poderia ajudar muito mais) mas como um apoio para os momentos difíceis. Nunca senti esta responsabilidade como um peso (talvez só nos momentos de depressão, mas esses não contam), cada vez mais encaro-a como um acto de amor. O que seria deles sem mim? Sou eu trato das relações com o banco, com as finanças, com a farmácia. Cada dia que passa vejo a minha mãe a entender cada vez menos as notícias que ouve e vê na comunicação social. Se eu não estivesse perto para explicar-lhe o que seria dela? Mesmo assim fica alarmada...
(Há uma sensação que tenho e que me preocupa. Vivermos num mundo repleto de informação. Já repararam na quantidade de mal-entendidos que acontecem? Com minha mãe isso acontece de vez em quando. Até que ponto a comunicação social está a ser clara na exposição do que comunica?)
Outra razão para ficar como estou é a minha convicção de ser incapaz de ser um bom orador. Admito ter facilidade em escrever, mas a facilidade fica por aí. Dizer o mesmo oralmente afigura-se-me impossível. Na escola sempre foi um tormento para mim ler em voz alta. E expor opiniões? Pavoroso. Fico logo desconfortável, corado (mesmo se não for visível, fico com calor na cara). Só de pensar nisso já estou a ficar com as maçãs do rosto quentes. Enfim, esta minha timidez, acanhamento, mazela psicológica, torna-me num péssimo candidato ao sacerdócio? Talvez por isso a ideia de ficar fechado num mosteiro seja mais atraente.
Pode-se dizer que para ser sacerdote não são as nossas qualidades ou defeitos que contam, mas sim o nosso amor a Jesus. Aí está outra razão. Sinto que o meu amor a Deus não é o suficiente para tal. Tenho feito uma caminhada de crescimento. A minha abordagem à fé teve que ser pelo lado intelectual. O meu caminhar é lento e cheio de dificuldades. Não sou uma pessoa de paixões, apaixonada ou apaixonante. Isto parece entrar em contradição com a minha reflexão da Quaresma passada. Uma das minhas tentações é querer ser perfeito, ser reconhecido, ser amado. É o oposto daquilo que se espera de um sacerdote, que deverá ser alguém disposto a amar se reconhecimento, que se entregue ao serviço.
Todas a três razões podem ser facilmente combatidas. As três juntas e mais alguma preguiça, arrogância, muito egoísmo, falta de fé e a ilusão de que através da escrita compense este meu não, eu justifico perante mim próprio o persistir neste caminho.
Normalmente quando chego a este ponto no raciocínio paro e entrego nas mãos de Deus o meu passado, presente e futuro. A Ele nada é impossível e quem sou eu para deslindar o mistério que o projecto Dele para todos nós. Vai na volta Ele quer que eu seja exactamente isto que sou. O que tenho que fazer é mudar a perspectiva de análise da questão. Na minha vida actual, sou ou não fiel a Deus? Até que ponto nesta existência monótona e apagada Ele é o centro?
Começando pela razão mais fácil de dar, digo que os meus pais precisam de mim. O meu pai com Alzheimer, a minha mãe cuidando dele 24 horas sobre 24 e não indo para nova. Ambos estão dependentes de mim, não tanto para lhes ajudar no dia a dia (embora se o meu pai deixasse, eu poderia ajudar muito mais) mas como um apoio para os momentos difíceis. Nunca senti esta responsabilidade como um peso (talvez só nos momentos de depressão, mas esses não contam), cada vez mais encaro-a como um acto de amor. O que seria deles sem mim? Sou eu trato das relações com o banco, com as finanças, com a farmácia. Cada dia que passa vejo a minha mãe a entender cada vez menos as notícias que ouve e vê na comunicação social. Se eu não estivesse perto para explicar-lhe o que seria dela? Mesmo assim fica alarmada...
(Há uma sensação que tenho e que me preocupa. Vivermos num mundo repleto de informação. Já repararam na quantidade de mal-entendidos que acontecem? Com minha mãe isso acontece de vez em quando. Até que ponto a comunicação social está a ser clara na exposição do que comunica?)
Outra razão para ficar como estou é a minha convicção de ser incapaz de ser um bom orador. Admito ter facilidade em escrever, mas a facilidade fica por aí. Dizer o mesmo oralmente afigura-se-me impossível. Na escola sempre foi um tormento para mim ler em voz alta. E expor opiniões? Pavoroso. Fico logo desconfortável, corado (mesmo se não for visível, fico com calor na cara). Só de pensar nisso já estou a ficar com as maçãs do rosto quentes. Enfim, esta minha timidez, acanhamento, mazela psicológica, torna-me num péssimo candidato ao sacerdócio? Talvez por isso a ideia de ficar fechado num mosteiro seja mais atraente.
Pode-se dizer que para ser sacerdote não são as nossas qualidades ou defeitos que contam, mas sim o nosso amor a Jesus. Aí está outra razão. Sinto que o meu amor a Deus não é o suficiente para tal. Tenho feito uma caminhada de crescimento. A minha abordagem à fé teve que ser pelo lado intelectual. O meu caminhar é lento e cheio de dificuldades. Não sou uma pessoa de paixões, apaixonada ou apaixonante. Isto parece entrar em contradição com a minha reflexão da Quaresma passada. Uma das minhas tentações é querer ser perfeito, ser reconhecido, ser amado. É o oposto daquilo que se espera de um sacerdote, que deverá ser alguém disposto a amar se reconhecimento, que se entregue ao serviço.
Todas a três razões podem ser facilmente combatidas. As três juntas e mais alguma preguiça, arrogância, muito egoísmo, falta de fé e a ilusão de que através da escrita compense este meu não, eu justifico perante mim próprio o persistir neste caminho.
Normalmente quando chego a este ponto no raciocínio paro e entrego nas mãos de Deus o meu passado, presente e futuro. A Ele nada é impossível e quem sou eu para deslindar o mistério que o projecto Dele para todos nós. Vai na volta Ele quer que eu seja exactamente isto que sou. O que tenho que fazer é mudar a perspectiva de análise da questão. Na minha vida actual, sou ou não fiel a Deus? Até que ponto nesta existência monótona e apagada Ele é o centro?
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A minha vocação
Tinha pensado escrever sobre vocações nesta semana, reflectindo o meu caso, e parece que pouco fiz até agora. Penso que para alguém analisar a sua vocação deverá pensar primeiro na sua história.
Resolvi falar só hoje sobre a minha vocação, pelo menos aquela que acho que tenho, por uma razão simbólica. Hoje em Lisboa começa a Feira do Livro e estou convencido que a minha vocação passa pela escrita.
Parece paradoxal chegar a esta conclusão sabendo que durante o tempo escolar não gostava de escrever. Só comecei a ter o gosto pela escrita quando deixei a escola. Passei vários anos desempregado e passando por tribulações psicológicas. Descobri na escrita uma forma de por cá para fora o que sentia, o que estava a passar. Comecei por escrever versos, fiz muitos poemas, que me ajudaram a relativizar muitos dos meus problemas.
O tempo foi passando, arranjei o meu primeiro emprego estável. Comecei a desejar ter um computador. E isto é muito importante. Eu não gostava de escrever à mão. Sou um pouco disléxico e troco muto os “pre” pelos “per” e dava muito erros. Experimentei escrever numa máquina, mas como me engano muito não gostava.
Finalmente há dez anos atrás comprei o meu computador e tudo mudou. Praticamente deixei de escrever poemas e passei para a prosa. Já tenho uma considerável obra na gaveta, nada que ache que valha a pena publicar… ainda.
Voltando à vocação. Durante muito tempo a escrita era um passatempo, mais nada. Comecei a encarar de outra forma depois de um dia de Santo António ter assistido a uma missa na igreja de São Domingos. O evangelho desse dia era a parábola dos talentos. Senti como nunca antes que aquele texto era dirigido especialmente a mim. Mesmo só com um talento tenho que o fazer render. Ora se só descubro em mim um certo talento para escrever é por aí que tenho que seguir. Isso não quer dizer que escreva exclusivamente sobre religião, para mais que gosto de escrever histórias, mas espero que um dia quando alguém venha a ler o que escrevo que reconheça a minha escrita como cristã ou que ajude alguém a descobrir Cristo.
Resolvi falar só hoje sobre a minha vocação, pelo menos aquela que acho que tenho, por uma razão simbólica. Hoje em Lisboa começa a Feira do Livro e estou convencido que a minha vocação passa pela escrita.
Parece paradoxal chegar a esta conclusão sabendo que durante o tempo escolar não gostava de escrever. Só comecei a ter o gosto pela escrita quando deixei a escola. Passei vários anos desempregado e passando por tribulações psicológicas. Descobri na escrita uma forma de por cá para fora o que sentia, o que estava a passar. Comecei por escrever versos, fiz muitos poemas, que me ajudaram a relativizar muitos dos meus problemas.
O tempo foi passando, arranjei o meu primeiro emprego estável. Comecei a desejar ter um computador. E isto é muito importante. Eu não gostava de escrever à mão. Sou um pouco disléxico e troco muto os “pre” pelos “per” e dava muito erros. Experimentei escrever numa máquina, mas como me engano muito não gostava.
Finalmente há dez anos atrás comprei o meu computador e tudo mudou. Praticamente deixei de escrever poemas e passei para a prosa. Já tenho uma considerável obra na gaveta, nada que ache que valha a pena publicar… ainda.
Voltando à vocação. Durante muito tempo a escrita era um passatempo, mais nada. Comecei a encarar de outra forma depois de um dia de Santo António ter assistido a uma missa na igreja de São Domingos. O evangelho desse dia era a parábola dos talentos. Senti como nunca antes que aquele texto era dirigido especialmente a mim. Mesmo só com um talento tenho que o fazer render. Ora se só descubro em mim um certo talento para escrever é por aí que tenho que seguir. Isso não quer dizer que escreva exclusivamente sobre religião, para mais que gosto de escrever histórias, mas espero que um dia quando alguém venha a ler o que escrevo que reconheça a minha escrita como cristã ou que ajude alguém a descobrir Cristo.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Isto é o que dá andar a pensar no passado
Ao escrever o texto anterior lembrei-me de um episódio desses anos difíceis e que me marcou e chocou muito.
Num dia de inverno três adolescentes saltaram do viaduto Duarte Pacheco para a morte. Havia problemas de droga envolvidos. Na Antena 3 houve um programa especial de debate sobre o assunto. Houve telefonemas, um deles era de um rapaz que fumava heroína que queria sair, mas estava quase, quase a começar a injectar-se. Foi um debate marcante. No final um dos apresentadores, o Henrique Amaro, deixou uma música que na sua opinião ilustrava um pouco aquele episódio.
Essa música passou a ser para mim algo de especial, talvez algo que me lembre a subir à tona de água para respirar. Que depois da escuridão o sol, mesmo por trás das nuvens, nasce sempre. Os GNR nunca e tocaram especialmente excepto neste Bellevue. Deixo aqui duas versões ao vivo, a de baixo parece-me mais próxima do disco, mas não tem imagem.
Num dia de inverno três adolescentes saltaram do viaduto Duarte Pacheco para a morte. Havia problemas de droga envolvidos. Na Antena 3 houve um programa especial de debate sobre o assunto. Houve telefonemas, um deles era de um rapaz que fumava heroína que queria sair, mas estava quase, quase a começar a injectar-se. Foi um debate marcante. No final um dos apresentadores, o Henrique Amaro, deixou uma música que na sua opinião ilustrava um pouco aquele episódio.
Essa música passou a ser para mim algo de especial, talvez algo que me lembre a subir à tona de água para respirar. Que depois da escuridão o sol, mesmo por trás das nuvens, nasce sempre. Os GNR nunca e tocaram especialmente excepto neste Bellevue. Deixo aqui duas versões ao vivo, a de baixo parece-me mais próxima do disco, mas não tem imagem.
A minha caminhada pelos vales da desolação
Quando acabei o décimo segundo ano não consegui entrar na universidade. Foi o início de uma crise profunda que só consegui superar uns cinco anos depois. Entrei para um curso que me permitiu aprender informática (vital para a minha actual situação). Mas depois estive quatro anos em que só trabalhei uns oito meses. A procura do primeiro emprego foi muito difícil e do segundo ainda mais.
Andei muito perdido. Nessa altura se fosse um jovem da minha idade normal teria entrado num mundo perigoso. Felizmente não saía à noite, não tinha amigos que me pudessem levar a experiências com álcool ou drogas. Desejei alienar-me. Nos meus mergulhos a imaginação vivi vidas dessas. Observava o lado alienante dos marginais. Desejava ter uma vida diferente, de sucesso, de felicidade. Mergulhava nas novelas. Cheguei a pensar que a televisão era a minha melhor amiga. Ficava arrasado quando acabava uma telenovela. A minha vida não tinha mais nada de interesse excepto quando via a três diárias (ao meio-dia, no final da tarde e à noite).
Costumo dizer que a minha adolescência aconteceu mais tarde do que o normal. Enquanto os da minha idade andavam na universidade eu quase que enlouquecia em casa e rebentava-me o acne na cara. Esse sentimento de loucura aconteceu-me numa semana em que saí de casa para ir à missa e só voltei a sair na semana seguinte para voltar à missa. Ganhei medo de andar na rua, de procurar emprego. Foi difícil.
Numa tentativa de arranjar emprego na CP como revisor tive uma conversa interessante com uma psicóloga. No processo de recrutamento tínhamos que passar por uma entrevista com uma psicóloga. Falámos um pouco e eu disse-lhe que não encontrava nada de especial em mim, que queria ter algo de especial como tantos outros. Ela disse-me algo do género que nem todos temos coisas especiais, que a maioria não tem nada de especial onde se destaque. Devo confessar que não fiquei convencido. E ainda não estou convencido. Todos temos algo de especial, podemos é não desenvolver isso.
Andei muito perdido. Nessa altura se fosse um jovem da minha idade normal teria entrado num mundo perigoso. Felizmente não saía à noite, não tinha amigos que me pudessem levar a experiências com álcool ou drogas. Desejei alienar-me. Nos meus mergulhos a imaginação vivi vidas dessas. Observava o lado alienante dos marginais. Desejava ter uma vida diferente, de sucesso, de felicidade. Mergulhava nas novelas. Cheguei a pensar que a televisão era a minha melhor amiga. Ficava arrasado quando acabava uma telenovela. A minha vida não tinha mais nada de interesse excepto quando via a três diárias (ao meio-dia, no final da tarde e à noite).
Costumo dizer que a minha adolescência aconteceu mais tarde do que o normal. Enquanto os da minha idade andavam na universidade eu quase que enlouquecia em casa e rebentava-me o acne na cara. Esse sentimento de loucura aconteceu-me numa semana em que saí de casa para ir à missa e só voltei a sair na semana seguinte para voltar à missa. Ganhei medo de andar na rua, de procurar emprego. Foi difícil.
Numa tentativa de arranjar emprego na CP como revisor tive uma conversa interessante com uma psicóloga. No processo de recrutamento tínhamos que passar por uma entrevista com uma psicóloga. Falámos um pouco e eu disse-lhe que não encontrava nada de especial em mim, que queria ter algo de especial como tantos outros. Ela disse-me algo do género que nem todos temos coisas especiais, que a maioria não tem nada de especial onde se destaque. Devo confessar que não fiquei convencido. E ainda não estou convencido. Todos temos algo de especial, podemos é não desenvolver isso.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Vocação minha – reflexão
Como já disse na minha infância e adolescência não demonstrei qualquer inclinação para o quer que fosse. Fui um aluno médio, que pertencia aos melhores das turmas por onde passei porque a média geral era bem fraquinha. Fui anónimo entre anónimos. Perdi o contacto com todos os colegas de escola e com os de trabalho antes deste actual. Como se vê o contacto social nunca foi o meu forte.
Apesar de gostar muito de música nunca tive jeito para tocar e cantar também. Tudo o que implicasse aplicação física também não me interessou. Desporto, dança, teatro, nada. Nunca gostei de escrever. Andei o tempo todo da escola a passar a custo às disciplinas de línguas, isso quando não chumbava. O meu pior ano foi o oitavo que passei-o com nega a português e francês. A educação física não contava.
O que é que me preocupava nesses anos? Não chumbar. Os meus pais queriam que passasse e que garantisse um bom futuro. Agora acho que preocupei-me e demasia, talvez até conseguisse melhores notas.
Houve outra constante no meu crescimento para além de passar de ano. Eu devia estar na primeira ou segunda classe, quando fiquei em casa doente com varicela ou algo desse género uns quinze dias. Passei esse tempo de cama e sem nada para fazer. Os meus pais nunca foram muito sensíveis à importância da leitura e não havia, também, dinheiro para tal. Por isso não lia quase nada nesses anos, a não ser os livros da escola. Nesse tempo de cama descobri a mais maravilhosa máquina que existe: o cérebro. Descobri que podia viver o que quisesse na minha imaginação. Daí em diante passei a aproveitar todos os momentos livres para mergulhar na minha imaginação. Tantas aventuras e histórias que vivi.
Isso ocupou-me espaço na minha vida. Se de natureza, por ambiente familiar, era pouco sociável mais fiquei. Nunca me passou pela cabeça encontrar-me com os colegas depois da escola. Tinha que fazer os trabalhos de casa, tinha que ver os bonecos, a minha mãe não ia deixar.
Enfim. Até à vida adulta a minha vocação foi ser obediente aos meus mais e mergulhar na minha imaginação.
Apesar de gostar muito de música nunca tive jeito para tocar e cantar também. Tudo o que implicasse aplicação física também não me interessou. Desporto, dança, teatro, nada. Nunca gostei de escrever. Andei o tempo todo da escola a passar a custo às disciplinas de línguas, isso quando não chumbava. O meu pior ano foi o oitavo que passei-o com nega a português e francês. A educação física não contava.
O que é que me preocupava nesses anos? Não chumbar. Os meus pais queriam que passasse e que garantisse um bom futuro. Agora acho que preocupei-me e demasia, talvez até conseguisse melhores notas.
Houve outra constante no meu crescimento para além de passar de ano. Eu devia estar na primeira ou segunda classe, quando fiquei em casa doente com varicela ou algo desse género uns quinze dias. Passei esse tempo de cama e sem nada para fazer. Os meus pais nunca foram muito sensíveis à importância da leitura e não havia, também, dinheiro para tal. Por isso não lia quase nada nesses anos, a não ser os livros da escola. Nesse tempo de cama descobri a mais maravilhosa máquina que existe: o cérebro. Descobri que podia viver o que quisesse na minha imaginação. Daí em diante passei a aproveitar todos os momentos livres para mergulhar na minha imaginação. Tantas aventuras e histórias que vivi.
Isso ocupou-me espaço na minha vida. Se de natureza, por ambiente familiar, era pouco sociável mais fiquei. Nunca me passou pela cabeça encontrar-me com os colegas depois da escola. Tinha que fazer os trabalhos de casa, tinha que ver os bonecos, a minha mãe não ia deixar.
Enfim. Até à vida adulta a minha vocação foi ser obediente aos meus mais e mergulhar na minha imaginação.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Um primeiro lampejo de reflexão sobre vocações
Nesta semana a Igreja propõe-nos que rezemos pelas vocações, em lato senso, mas também de uma forma especial pelas vocações religiosas. Esta proposta vai ser um bom pretexto para meditar um pouco sobre as vocações, em particular a minha.
A minha paróquia mudou de pároco há quase três anos. No tempo do anterior este tempo para mim era penoso. Eu gostava muito da forma como ele comunicava, mas neste tempo ele era particularmente incisivo e sentia-me muito interpelado para pensar no que estava a fazer com a minha vida.
Ciclicamente questiono-me se não devia ir ou ter ido para uma vida religiosa consagrada. O trajecto da minha vida não me levou para aí. Se soubesse o que sei hoje, se tivesse a tranquilidade de fé que agora tenho, no tempo da minha adolescência, teria entrado por essa via, pelo menos para ver se era mesmo isso que estava destinado para mim.
Uma das coisas que mais me entristece na minha história foi nunca ter tido um objectivo definido para minha vida. Ao longo do tempo fui mudando de opinião. Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande ou não sabia dizer ou dizia coisas vagas. A minha mãe diz que eu cheguei a dizer que queria ser palhaço. Não me lembro disso, lembro sim de desejar ser artista de circo, trapezista ou malabarista. Houve uma altura entre o sétimo e o nono anos que quis ser veterinário (tinha um colega que queira ser e eu imitei-o inconscientemente), mas percebi que iria ser difícil e mexia com sangue, por isso acabei por seguir a área financeira que num raro momento de lucidez pareceu-me dar melhores saídas profissionais. E ainda cá estou.
A minha paróquia mudou de pároco há quase três anos. No tempo do anterior este tempo para mim era penoso. Eu gostava muito da forma como ele comunicava, mas neste tempo ele era particularmente incisivo e sentia-me muito interpelado para pensar no que estava a fazer com a minha vida.
Ciclicamente questiono-me se não devia ir ou ter ido para uma vida religiosa consagrada. O trajecto da minha vida não me levou para aí. Se soubesse o que sei hoje, se tivesse a tranquilidade de fé que agora tenho, no tempo da minha adolescência, teria entrado por essa via, pelo menos para ver se era mesmo isso que estava destinado para mim.
Uma das coisas que mais me entristece na minha história foi nunca ter tido um objectivo definido para minha vida. Ao longo do tempo fui mudando de opinião. Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande ou não sabia dizer ou dizia coisas vagas. A minha mãe diz que eu cheguei a dizer que queria ser palhaço. Não me lembro disso, lembro sim de desejar ser artista de circo, trapezista ou malabarista. Houve uma altura entre o sétimo e o nono anos que quis ser veterinário (tinha um colega que queira ser e eu imitei-o inconscientemente), mas percebi que iria ser difícil e mexia com sangue, por isso acabei por seguir a área financeira que num raro momento de lucidez pareceu-me dar melhores saídas profissionais. E ainda cá estou.
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