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domingo, 20 de março de 2011
Invisibilidade
Descobri este vídeo no Facebook do blog Toques de Deus. Tem me dado que pensar, mas também tranquilizado.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Uma longa, longa mensagem de Natal
Tenho andado com pouca disposição para a escrita, tanto aqui como nos meus projectos. Isto de andar a tirar aulas de treino de condução, mais as preocupações que isso acarreta, mais o final da convalescença da operação, mais o frio e a chuva, tudo isto e inércia inata afastaram-me das palavras e das frases. A escrita não é uma actividade natural no ser humano. O desejo que comunicação, sim. O problema é que esse desejo tem andado adormecido.
Apesar de não ter escrito, tenho pensado (é capaz de ser presunção minha dizer reflectido) sobre alguns assuntos. Aviso já que não cheguei a nenhuma conclusão. O meu pensamento (raciocínio/reflexão) não chega a tanto. Tal é a minha confusão mental que nem sei por onde começar.
Começo talvez por algo que me tocou com intensidade. A instrutora de condução disse-me esta semana que eu sou demasiado exigente comigo próprio. Na altura neguei, mas bem vistas as coisas acho que tem razão. Estou a ter estas aulas por necessidade, quero rapidamente aprender e fazer tudo bem logo. Ao perceber que o meu corpo não acompanha a aprendizagem intelectual duas coisas aconteceram: uma machadada violenta no meu ego, pois estava convencido que conseguia aprender qualquer coisa, mesmo sendo difícil; por outro lado senti-me mais tranquilo, vai levar tempo, mas chegarei lá (na altura em que ela disse-me isto eu andava um pouco em baixo porque só via os erros que fazia e não a evolução).
Ao longo das aulas fui passando por vários estados de alma: frustração, pânico, descrença, cepticismo, resignação, esperança, alívio, nervosismo, sempre e sempre o medo de errar, de causar acidentes. Nos primeiros dias a minha condução parecia de um alcoolizado. Agora não é tanto, mas direcção continua a ser um problema. Como é que é possível numa recta eu andar aos esses? Estará o mundo alcoolizado e ninguém me disse? O estado de alma actual é resignação à minha insignificância e esperança em conseguir chegar a bom porto neste empreendimento, mesmo que me custe muitas mais aulas do que estava previsto.
Este tem sido um dos temas da minha meditação (se há sinónimos ou aparentados, porque não usar?). Tem-me levado a pensar sobre a forma como me olho e quem sou. Outro tema, está relacionado com a minha personalidade, é sobre o Natal e a alegria. Como viver o Natal? O que é o Natal? O que é para um cristão o Natal? O Advento e o tempo depois propriamente chamado de Natal? Descobri que olhando em redor o Natal que vejo e acabo por viver deprime-me. Não consigo sentir-me alegre por decreto, por marca no calendário, porque os outros estão alegres.
Uma bandeira do Natal na sociedade é a família. Olho para a minha e o que vejo? Doença, sofrimento, solidão. Onde está a alegria? O meu pai ou está alucinado querendo voltar para a casa de infância (este estado pode durar em média dois dias e duas noites, sem dormir, sempre querendo ir embora e no ponto mais activo procurado a porta para ir embora) ou está cansado e dormente não querendo sair do sítio onde está. A minha mãe oscila entre o choro, a irritação com a não colaboração do meu pai, o desgosto sempre presente por causa da solidão, das canseiras e dos achaques que também tem. Eu no meio disto oscilo entre a distância que tento manter para preservar alguma lucidez ou a entrada num turbilhão de emoções (raiva, irritação, raiva e mais raiva, impotência, solidão, muita solidão). Persegue-me o fantasma de um dia herdar a mesma doença do meu pai. Tento mentalizar-me que viverei muita solidão no futuro, como sobreviverei a isto? Se não fosse a minha pouca fé, estaria bem arranjado. Provavelmente entraria para as estatísticas do suicídio.
Voltando à meditação: neste cenário onde está a alegria? Acrescento mais uma peça: a minha personalidade melancólica. O que fazer com ela perante esta necessidade de alegria? Sim, porque Jesus disse que nos quer alegres, porque afinal não temos que temer nada. Eu sou melancólico, não há nada a fazer sem violentar a minha natureza, não é? Posso ser alegre e melancólico? Triste? Só vejo uma saída: todos os meus pressupostos estão errados. O que é então a alegria cristã? Será o estado de espírito de elevação? Tem que ser algo mais. Não pode ser um sentimento, pois há pessoas propensas a uns e outras a outros. Ser alegre deve ser uma atitude perante a realidade. Será isso? Viver melancolicamente com uma atitude positiva. Parece-me uma boa meta a atingir. Não consigo andar sempre com o coração a transbordar de bom-humor, de exaltação, nem com um sorriso rasgado desde o acordar até ao deitar, nem rir ou ser a animação de uma festa.
Há dois aspectos da alegria que em faltam e fazem falta: paz interior e entrega. Quando vivo na rotina, sem preocupações, é-me fácil ser alegre, mas isto parece-me bastante egoísta. Sim, egoísta porque vivo fechado na rotina, fechado à novidade, instalado. Lamento admitir, mas dou-me pouco. São poucas as vezes em que me abrir aos outros e entreguei-me, fiz o Bem. Este lado negro desgosta-me e podem bem dizer: “ora, muda a tua atitude”. É fácil dizer, mas muito difícil fazer. Pelo menos para mim. Quando penso nestas coisas tenho dúvidas sobre se tenho realmente fé, se sou cristão sequer. Aqui lembro-me de um diálogo no livro Harry Potter e Câmara dos Segredos. O Harry questiona-se sobre se ele não estará destinado a ser um feiticeiro mau, porque tem muitas semelhanças com o Voldemort. O Director pergunta-lhe sobre o que o Chapéu Seleccionador lhe disse no primeiro ano, quando atribuiu as casas onde os alunos iam estar. O Harry disse que pedira ao Chapéu para o pôr nos Griffindor, apesar de ele ter todas a qualidade para ir para a casa conotada com os feiticeiros maus. O Chapéu fez-lhe a vontade. O Director disse-lhe que o que faz uma pessoa não são as suas características, habilidade, virtudes, mas sim as suas decisões. Eu decido-me por ser cristão, católico, apesar de não ver em mim qualidades necessárias. Insisto. Persevero. Faço caminho.
Na terça-feira coloquei no Facebook uma questão: porquê que se celebra o Natal? Só tive um comentário. É justo, a nível humano, se não participo no que os outros dizem ou fazem, porquê esperar uma reacção diferente comigo? Depois dei a minha resposta e ninguém mostrou qualquer reacção. O Natal celebra-se porque Jesus ressuscitou. O Natal está dependente da Páscoa. Sem a Páscoa o Natal não tem sentido. A alegria e esperança natalícias estão relacionadas com a ressurreição de Jesus. Celebramos o nascimento do nosso salvador, de quem nos está a ajudar a vencer a morte, o sofrimento e a atingir a felicidade.
Há uma atitude (chamar-se-á alegria?) a ter que sei intelectualmente, mas tenho dificuldades em tê-la em prática. Tudo depende do nosso olhar. Não há sofrimento. Sofremos porque o nosso olhar não está focado no Além. Se tivéssemos a atitude que Jesus teve no Calvário e na Cruz, de abandono e confiança, não sofreríamos. Porquê que não dou um sentido ao estado da minha família? À doença do meu pai? Porquê que não vejo as suas implicações e manias como um exercício necessário para crescer? Porquê que me deixo tocar pela raiva quando ele urina para o chão em vez de o fazer na sanita? Porquê que desespero perante o chora da minha mãe quando ele anda de janela em janela, porta em porta para ir embora?
Às vezes digo no escuro que é por amor que aguento isto tudo. É por amor que abdico de formar família, de ter uma juventude normal com amigos, saídas à noite, festas e convívio. Mas à luz do dia olho para mim e para a minha vida e vejo que não abdiquei de nada. Não abdiquei porque nada escolhi. Vivo assim porque é-me confortável viver assim. Vivo com os meus pais porque não me vejo a viver longe deles. Protegem-me e protejo-os. É por amor e comodismo. É por amor e medo de sair da rotina.
Então o que será alegria numa pessoa melancólica? Deve ser o mesmo que em alguém alegre: entrega e sentido para a vida. Nesta definição: serei alegre? Acho que não. Entrego-me pouco, pelo menos no sentido do relacionamento com as outras pessoas. (ouço algures no meu cérebro a voz da minha instrutora de condução: lá estás tu a ser demasiado exigente contigo próprio).
Sabem uma coisa? Não devia sentir-me triste por não ser como as outras pessoas. Não sou uma pessoa expansiva no contacto social. Não vejo a realidade da mesma forma. Isso vai trazer-me dissabores? Vai, mas mantendo-me como sou uma coisa é certa, estarei a cumprir o que Deus sonhou para mim. Quem sabe se estas deambulações melancólicas, depressivas não ajudarão alguém a ser mais autêntico e a voltar ao plano de Deus?
No Facebook disse: não dêem presentes, meus amigos, sejam presentes na vida dos outros e assim Jesus estará presente na vida deles. A quem leu isto até aqui um muito obrigado e recebam os meus votos de um Santo Natal. Desejo que sejas Jesus presente no local onde estás.
Boas festas
P.S. Fico sempre com a sensação que não disse tudo, mas isto já vai muito longo.
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sábado, 2 de outubro de 2010
Dracma perdido
Acho que não deixei transparecer aqui no blog uma certo desgosto e apreensão que vivi nas últimas semanas. Pouco antes de inaugurar o blog Silveira dei por mim sem saber onde estava uma pen drive, onde estava uma cópia dos primeiros capítulos e muito mais coisas que tenho escrito. Andei desgostoso. Procurei, por todo o lado onde a podia ter deixado, várias vezes. Convenci-me do seu desaparecimento definitivo e rezei para que não fosse parar a mãos erradas.
Ontem à hora de almoço fui comprar outra, resignado. Então não é que ao chegar a casa a minha mãe disse-me que a encontrou na máquina de lavar roupa! Pelos visto foi lá parar no bolso das calças e por lá ficou escondida estes dias todos. Esta pen drive tem uma tampa que protege a entrada e por isso a estadia estes dias todos no tambor da máquina, com tantas lavagens, não a danificou.
Foi uma alegria imensa. Lembrei-me logo da parábola da dracma perdida e de como a mulher ao encontrá-la chamou as amigas. Agora tenho duas pens e mais uma motivo para agradecer a Deus esta lição. Agradecer, pois por enquanto não sei o que é suposto aprender com ela. Uma coisa é certa, no meu desgosto cheguei a pedir informalmente (já que não sei o responso) a Santo António pelo paradeiro dela ou então pela sua destruição. Não é o objecto em si que me interessava, era o conteúdo, fruto do meu trabalho de escrita que ficava por aí, ao deus dará...
Ontem à hora de almoço fui comprar outra, resignado. Então não é que ao chegar a casa a minha mãe disse-me que a encontrou na máquina de lavar roupa! Pelos visto foi lá parar no bolso das calças e por lá ficou escondida estes dias todos. Esta pen drive tem uma tampa que protege a entrada e por isso a estadia estes dias todos no tambor da máquina, com tantas lavagens, não a danificou.
Foi uma alegria imensa. Lembrei-me logo da parábola da dracma perdida e de como a mulher ao encontrá-la chamou as amigas. Agora tenho duas pens e mais uma motivo para agradecer a Deus esta lição. Agradecer, pois por enquanto não sei o que é suposto aprender com ela. Uma coisa é certa, no meu desgosto cheguei a pedir informalmente (já que não sei o responso) a Santo António pelo paradeiro dela ou então pela sua destruição. Não é o objecto em si que me interessava, era o conteúdo, fruto do meu trabalho de escrita que ficava por aí, ao deus dará...
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Aniversário de baptismo
Hoje é o dia em que fui baptizado em criança. Ao contrário do dia de aniversário civil, dou mais importância a este. E assinalo-o aqui.
Para um cristão o dia do seu baptizado tem um significado muito importante. É momento em que o pecado original desaparece da sua existência e entra definitivamente na filiação divina. Entra numa família muito alargada. Passa a fazer parte de pleno direito do Reino de Deus, do Corpo Místico. Fica marcado espiritualmente com o sangue do Cordeiro.
Desde esse dia que está na caminho iniciado por Jesus, segue-O. Foi iniciado nele. Pelo caminho fará escolhas, mas a semente está lá. Se vejo no baptismo motivos para felicidade e festejo (eu que não gosto de festas), compreende-se a minha tristeza quando vejo este pequeno passo rejeitado ou empurrado para um futuro incerto indelevelmente marcado pela opção presente.
Quando alguém delega no filho a decisão de passar por essa porta o que está a fazer é a fechar-lhe essa porta. No futuro pensará se os meus pais não me iniciaram é porque não acharam que era assim tão importante. Os pais ao não baptizarem os filhos estão a negar-se, mesmo sem querer e por boa intenções, a Deus. Estão a dizer que Deus não tem lugar na sua vida. Mesmo se não frequentassem a igreja, Deus estava presente naquela família também através daquela(s) criança(s).
Se eu acho que o matrimónio devia ser bem mais trabalhado, o baptismo devia ser facilitado. No Algarve, na zona por onde costumo andar, é regra que só os casais casados pela Igreja ou os que não possam por serem recasados é que podem baptizar os filhos. Aqueles que optam por não casar têm dificuldades e acabam por não o fazer.
Por isso hoje festejo discretamente, como é meu estilo, o meu aniversário de baptismo. E até tive muita sorte por calhar neste dia, festa do nascimento de Nossa Senhora. Belo dia e cheio de significado. O início da História da Encarnação. Deus e a humanidade percorreram um longo caminho de aproximação e com um acto de abandono ao Amor de Deus a humanidade começou a fundir-se com Deus. O Baptismo representa a nível individual isso mesmo a fusão do ser humano com Deus.
Para um cristão o dia do seu baptizado tem um significado muito importante. É momento em que o pecado original desaparece da sua existência e entra definitivamente na filiação divina. Entra numa família muito alargada. Passa a fazer parte de pleno direito do Reino de Deus, do Corpo Místico. Fica marcado espiritualmente com o sangue do Cordeiro.
Desde esse dia que está na caminho iniciado por Jesus, segue-O. Foi iniciado nele. Pelo caminho fará escolhas, mas a semente está lá. Se vejo no baptismo motivos para felicidade e festejo (eu que não gosto de festas), compreende-se a minha tristeza quando vejo este pequeno passo rejeitado ou empurrado para um futuro incerto indelevelmente marcado pela opção presente.
Quando alguém delega no filho a decisão de passar por essa porta o que está a fazer é a fechar-lhe essa porta. No futuro pensará se os meus pais não me iniciaram é porque não acharam que era assim tão importante. Os pais ao não baptizarem os filhos estão a negar-se, mesmo sem querer e por boa intenções, a Deus. Estão a dizer que Deus não tem lugar na sua vida. Mesmo se não frequentassem a igreja, Deus estava presente naquela família também através daquela(s) criança(s).
Se eu acho que o matrimónio devia ser bem mais trabalhado, o baptismo devia ser facilitado. No Algarve, na zona por onde costumo andar, é regra que só os casais casados pela Igreja ou os que não possam por serem recasados é que podem baptizar os filhos. Aqueles que optam por não casar têm dificuldades e acabam por não o fazer.
Por isso hoje festejo discretamente, como é meu estilo, o meu aniversário de baptismo. E até tive muita sorte por calhar neste dia, festa do nascimento de Nossa Senhora. Belo dia e cheio de significado. O início da História da Encarnação. Deus e a humanidade percorreram um longo caminho de aproximação e com um acto de abandono ao Amor de Deus a humanidade começou a fundir-se com Deus. O Baptismo representa a nível individual isso mesmo a fusão do ser humano com Deus.
domingo, 22 de agosto de 2010
Nostalgia de Deus III
43 (42)
1*Faz-me justiça, ó Deus,
e defende a minha causa contra a gente sem piedade!
Livra-me do homem mentiroso e perverso.
Como tenho sede! Como tenho sede, estou mais debilitado. Senhor, mesmo que não possa desde já contemplar o Teu rosto, como gostaria, fortalece-me contra os meu inimigos. Meus inimigos que vivem dentro de mim, forças, tendências, que me levam a fazer o que não quero. Livra-me do eu mentiroso e perverso. Tenho sede, mas não quero usar isso para justificar-me, meu Deus.
2*Tu, ó Deus, és o meu refúgio. Porque me rejeitaste?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?
Tu és o meu marco milenar, farol em costa deserta. Quando sinto saudades de Ti, concentro-me nesta sede e faço dela oração. Rejeito este sentimento de rejeição. Sei, acredito, sei que és a minha segurança. A minha fraqueza leva-me à tristeza e ao medo. O meu maior inimigo sou eu quando me esqueço desta sede.
3Envia a tua luz e a tua verdade,
para que elas me guiem e conduzam
à tua montanha santa, à tua morada.
Aqui estou de cabeça baixa, prostrado, esperando por Ti. Vivo num mar agitado de ondas de alegria e tristeza. De sede e esquecimento. Envia o Teu Santo Espírito para me fortalecer e encaminhar rumo a Ti. Minha fonte de água viva.
4Eu irei ao altar de Deus,
ao Deus que é a alegria da minha vida.
Ao som da harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus.
Sei e acredito que a minha hora chegará. Minha sede será saciada. Isso dá-me forças e alegra. Haverá festa. Um vitelo gordo será preparado para todos, um anel ser-me-á posto no dedo e roupas limpas cairão sobre este corpo cansado de caminhar, penar e cair. Eu que não sei cantar, cantarei só para Ti. Porque a minha sede será saciada. Sei.
5Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
Porque te entristeces alma minha? Se sabes que Ele nos espera, se sabes e acreditas, porque te perturbas?
Força.1*Faz-me justiça, ó Deus,
e defende a minha causa contra a gente sem piedade!
Livra-me do homem mentiroso e perverso.
Como tenho sede! Como tenho sede, estou mais debilitado. Senhor, mesmo que não possa desde já contemplar o Teu rosto, como gostaria, fortalece-me contra os meu inimigos. Meus inimigos que vivem dentro de mim, forças, tendências, que me levam a fazer o que não quero. Livra-me do eu mentiroso e perverso. Tenho sede, mas não quero usar isso para justificar-me, meu Deus.
2*Tu, ó Deus, és o meu refúgio. Porque me rejeitaste?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?
Tu és o meu marco milenar, farol em costa deserta. Quando sinto saudades de Ti, concentro-me nesta sede e faço dela oração. Rejeito este sentimento de rejeição. Sei, acredito, sei que és a minha segurança. A minha fraqueza leva-me à tristeza e ao medo. O meu maior inimigo sou eu quando me esqueço desta sede.
3Envia a tua luz e a tua verdade,
para que elas me guiem e conduzam
à tua montanha santa, à tua morada.
Aqui estou de cabeça baixa, prostrado, esperando por Ti. Vivo num mar agitado de ondas de alegria e tristeza. De sede e esquecimento. Envia o Teu Santo Espírito para me fortalecer e encaminhar rumo a Ti. Minha fonte de água viva.
4Eu irei ao altar de Deus,
ao Deus que é a alegria da minha vida.
Ao som da harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus.
Sei e acredito que a minha hora chegará. Minha sede será saciada. Isso dá-me forças e alegra. Haverá festa. Um vitelo gordo será preparado para todos, um anel ser-me-á posto no dedo e roupas limpas cairão sobre este corpo cansado de caminhar, penar e cair. Eu que não sei cantar, cantarei só para Ti. Porque a minha sede será saciada. Sei.
5Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
Porque te entristeces alma minha? Se sabes que Ele nos espera, se sabes e acreditas, porque te perturbas?
Fortalece-te com esta sede.
Fortalece-te com este desejo.
Sê luz e esperança.
Caminha.
Caminha.
domingo, 15 de agosto de 2010
Nostalgia de Deus II
Continuação do Salmo 42 (41)
7A minha alma está abatida:
por isso, penso muito em ti,
desde as terras do Jordão e dos montes Hermon e Miçar.
Longo caminho tenho que andar até chegar ao Teu oasis. Longo, longo, minha alma entristece-se. Tenho sede e raramente chego a Ti, raramente Tua sombra dá-me descanso neste sol de meio-dia. Penso em Ti e sinto saudades dos breves momentos que partilhámos juntos. Tão lá para trás!
8*De abismo em abismo ressoa
o fragor das águas revoltas;
as tuas vagas e torrentes passaram sobre mim.
Oh, como és grande! Tanto que mal te vejo. Sei que estou dentro de Ti, mas tudo me parece um sonho, uma miragem causada pela sede e por este sol de meio-dia. Esta sede avassala-me ou serás Tu? De abismo em abismo o som das águas chega a mim, mas elas, mas elas não. Aqui estou e Tu escondes-Te por trás da luz que me encadeia.
9Durante o dia, o SENHOR há-de enviar-me os seus favores,
para que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.
Mesmo que os meus sentidos ainda corrompidos não Te vejam, sei, acredito, sei que Tu olhas por mim. Sei, acredito, sei que envias o Teu Espírito para fortalecer o meu caminhar, para guiar-me e não entrar em sendas errantes. O teu Espírito fortalece-me, mesmo que a minha mente e coração não o sintam, mas quando ao deitar estou feliz, alegre, jubiloso, é para Ti que endereço tudo, mesmo que o coração não saiba e a mente não diga.
10Quero dizer a Deus: "Tu és o meu protector,
porque te esqueces de mim?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?"
É nesses momentos de alegria que Te agradeço tudo, tudo o que recebo de bom e de mau. A alegria e a tristeza. E canto com o grilo na sua toca. E canto o descanso da noite. Por vezes a noite é mais forte, o sono arrasta-me para terrenos de pedras aguçadas. Rasgam-me a pele e a sede é maior. De estás do meu lado, porquê estes sonhos maus? O sonho é o nocturno reflexo real da irrealidade do dia. Por vezes a sede diz-me que Tu me esqueceste, meu Deus.
11Quebram-se os meus ossos,
quando os inimigos me insultam
e repetem a toda a hora:
"Onde está o teu Deus?"
E voltam os pesadelos, as dores. Eu sofro com esta sede e há quem não Te queira. Como é possível? Minhas entranhas revoltam-se. Uns tudo têm, não sentem esta sede e eu aqui, mendigando, arrastando-me por esta estrada de aguçadas pedras e vidros em vez de areia. O seu desprezo por Ti magoa-me. É como se dissessem: tens essa sede toda porque queres, só há vazio, sacia-te nos mesmo que nós.
12Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
Mas eu sei, acredito, sei de saber aprendido e vivido que Tu és o meu Senhor. Que Tu és a minha água. Por isso, alegra-te minha alma que a tua água chegará. Hei-de beber tuda quanta quiser e depois nadar, nadar no oceano do Teu Amor. Não mais terei sede. Meu Amor!
7A minha alma está abatida:
por isso, penso muito em ti,
desde as terras do Jordão e dos montes Hermon e Miçar.
Longo caminho tenho que andar até chegar ao Teu oasis. Longo, longo, minha alma entristece-se. Tenho sede e raramente chego a Ti, raramente Tua sombra dá-me descanso neste sol de meio-dia. Penso em Ti e sinto saudades dos breves momentos que partilhámos juntos. Tão lá para trás!
8*De abismo em abismo ressoa
o fragor das águas revoltas;
as tuas vagas e torrentes passaram sobre mim.
Oh, como és grande! Tanto que mal te vejo. Sei que estou dentro de Ti, mas tudo me parece um sonho, uma miragem causada pela sede e por este sol de meio-dia. Esta sede avassala-me ou serás Tu? De abismo em abismo o som das águas chega a mim, mas elas, mas elas não. Aqui estou e Tu escondes-Te por trás da luz que me encadeia.
9Durante o dia, o SENHOR há-de enviar-me os seus favores,
para que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.
Mesmo que os meus sentidos ainda corrompidos não Te vejam, sei, acredito, sei que Tu olhas por mim. Sei, acredito, sei que envias o Teu Espírito para fortalecer o meu caminhar, para guiar-me e não entrar em sendas errantes. O teu Espírito fortalece-me, mesmo que a minha mente e coração não o sintam, mas quando ao deitar estou feliz, alegre, jubiloso, é para Ti que endereço tudo, mesmo que o coração não saiba e a mente não diga.
10Quero dizer a Deus: "Tu és o meu protector,
porque te esqueces de mim?
Porque hei-de andar triste sob a opressão do inimigo?"
É nesses momentos de alegria que Te agradeço tudo, tudo o que recebo de bom e de mau. A alegria e a tristeza. E canto com o grilo na sua toca. E canto o descanso da noite. Por vezes a noite é mais forte, o sono arrasta-me para terrenos de pedras aguçadas. Rasgam-me a pele e a sede é maior. De estás do meu lado, porquê estes sonhos maus? O sonho é o nocturno reflexo real da irrealidade do dia. Por vezes a sede diz-me que Tu me esqueceste, meu Deus.
11Quebram-se os meus ossos,
quando os inimigos me insultam
e repetem a toda a hora:
"Onde está o teu Deus?"
E voltam os pesadelos, as dores. Eu sofro com esta sede e há quem não Te queira. Como é possível? Minhas entranhas revoltam-se. Uns tudo têm, não sentem esta sede e eu aqui, mendigando, arrastando-me por esta estrada de aguçadas pedras e vidros em vez de areia. O seu desprezo por Ti magoa-me. É como se dissessem: tens essa sede toda porque queres, só há vazio, sacia-te nos mesmo que nós.
12Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
Mas eu sei, acredito, sei de saber aprendido e vivido que Tu és o meu Senhor. Que Tu és a minha água. Por isso, alegra-te minha alma que a tua água chegará. Hei-de beber tuda quanta quiser e depois nadar, nadar no oceano do Teu Amor. Não mais terei sede. Meu Amor!
domingo, 8 de agosto de 2010
Nostalgia de Deus I
Nota prévia: Nestes dias de férias longe da net, deixo-vos a minha visão sobre um dos salmos que mais gosto. Os salmos 42 e 43 formam na realidade um só, pois a temática é comum e, caso único no saltério, há um refrão, um versículo que se repete duas vezes.
42 (41) NOSTALGIA DE DEUS
1Ao director do coro. Poema dos filhos de Coré.
2*Como suspira a corça pelas águas correntes,
assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
Na Palestina a geografia é agreste, há zonas de deserto. Imagina-se a sede da corça, talvez esteja a amamentar, é assim que o salmista se sente. Quanto mais me dou, mais sede tenho.
3*A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!
Quando poderei contemplar a face de Deus?
Sou um deserto, busco-Te, e por mais orações, missas e livros que entrem na minha vida, sinto um vazio, uma sede infinitos. Onde estás, Senhor? Preciso de Ti. Acendeste esta sede e agora onde estás? Quero-Te a Ti. Não tardes!
4*Dia e noite as lágrimas são o meu alimento,
porque a toda a hora me perguntam:
"Onde está o teu Deus?"
Onde está Ele, perguntam-me. Esta sede é uma sombra que me acompanha. Nada posso, pois sou todo Dele. Anseio por Ele. E não me compreendem. Porquê? Porque a imagem que têm de Deus é limitada. O vêem, o que tocam, o que compreendem é o seu deus. Sofro porque afastam-se Dele. Sofro porque sentem esta sede e querem saciá-la com terra, lama e pus.
5A minha alma estremece ao recordar
quando passava em cortejo para a Casa do Senhor,
entre vozes de alegria e de louvor
da multidão em festa.
Mas Ele já me tocou, já deu a cheirar o seu perfume inigualável. É por isso que tenho sede. Saudade daqueles momentos. Tão poucos. Agora sei que pouco de mim esteve ali. Dei-me tão pouco e a sede fica maior ao compreender isso. Meu Deus, que festa faria se Te voltasse a encontrar! É por isso que à vezes vou em festa à Tua casa. Quando a sede é maior e sinto uma gota, uma pequena gota, a tocar-me nos lábios.
6Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
E canto com as aves. E canto com a brisa da manhã nestes dias estivais. Canto com as árvores que se fortificam e escurecem suas folhas, cheias de vida. Canto com a seiva que corre, com o calor que tudo madura e faz chegar ao zénite da sua existência. Tu és o meu Deus e Salvador. Tenho sede, mas sei que serei saciado. É esta a minha esperança e força.
42 (41) NOSTALGIA DE DEUS
1Ao director do coro. Poema dos filhos de Coré.
2*Como suspira a corça pelas águas correntes,
assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
Na Palestina a geografia é agreste, há zonas de deserto. Imagina-se a sede da corça, talvez esteja a amamentar, é assim que o salmista se sente. Quanto mais me dou, mais sede tenho.
3*A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!
Quando poderei contemplar a face de Deus?
Sou um deserto, busco-Te, e por mais orações, missas e livros que entrem na minha vida, sinto um vazio, uma sede infinitos. Onde estás, Senhor? Preciso de Ti. Acendeste esta sede e agora onde estás? Quero-Te a Ti. Não tardes!
4*Dia e noite as lágrimas são o meu alimento,
porque a toda a hora me perguntam:
"Onde está o teu Deus?"
Onde está Ele, perguntam-me. Esta sede é uma sombra que me acompanha. Nada posso, pois sou todo Dele. Anseio por Ele. E não me compreendem. Porquê? Porque a imagem que têm de Deus é limitada. O vêem, o que tocam, o que compreendem é o seu deus. Sofro porque afastam-se Dele. Sofro porque sentem esta sede e querem saciá-la com terra, lama e pus.
5A minha alma estremece ao recordar
quando passava em cortejo para a Casa do Senhor,
entre vozes de alegria e de louvor
da multidão em festa.
Mas Ele já me tocou, já deu a cheirar o seu perfume inigualável. É por isso que tenho sede. Saudade daqueles momentos. Tão poucos. Agora sei que pouco de mim esteve ali. Dei-me tão pouco e a sede fica maior ao compreender isso. Meu Deus, que festa faria se Te voltasse a encontrar! É por isso que à vezes vou em festa à Tua casa. Quando a sede é maior e sinto uma gota, uma pequena gota, a tocar-me nos lábios.
6Porque estás triste, minha alma, e te perturbas?
Confia em Deus: ainda o hei-de louvar.
Ele é o meu Deus e o meu salvador.
E canto com as aves. E canto com a brisa da manhã nestes dias estivais. Canto com as árvores que se fortificam e escurecem suas folhas, cheias de vida. Canto com a seiva que corre, com o calor que tudo madura e faz chegar ao zénite da sua existência. Tu és o meu Deus e Salvador. Tenho sede, mas sei que serei saciado. É esta a minha esperança e força.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Livro para as férias
Estou quase a ir de férias. No meu caso ir de férias costuma ser um drama. Ter que sair da minha casa, enfrentar a viagem de comboio com as bagagens, o gato, as fita que o meu pai poderá fazer. É um stress.
Por outro lado, a nossa casa de férias é minúscula, vou estar em maior contacto com o meu pai e sujeito às suas traquinices que costumas ficar marcadas na pele e músculo. Terá que haver uma redefinição dos espaços. Toda essa adaptação leva tempo e tem o preço de mais nervos. Não poderei andar livremente pelos campos porque a minha mãe tem medo que alguém ou anima me faça mal.
Assim sendo, férias, férias seria se eu fizesse férias da minha família. Do trabalho poucas férias preciso, é mais da família, e isso não poderei ter naturalmente. Até me custa pensar na eventualidade de um dia viver sem eles. O que vai ser de mim?
As mudemos de assunto, pois o que me levou a escrever não é nada triste. No sábado passado comprei um livro que espero levar para ler nas férias. Tive muito sorte ou foi Deus que me encaminhou até ele.
Nos últimos tempos tenho adquirido alguma curiosidade pelo padre José Tolentino Mendonça. Um eminente teólogo, que também é poeta, escritor. Queria conhecer a sua poesia e por isso tinha o nome dele arquivado na minha memória para uma ida à Fanc. Estava a sair da secção dos livros quando dei de caras com o livro A Noite Abre Meus Olhos.

Este livro é a compilação num só livro dos primeiros livros de poesia dele. Um bolo com uma cereja no topo. De uma assentada fico com uma parte considerável da sua obra e com muita poesia espiritualmente inspirada. Para além de ser em formato de bolso, o que ma dá a garantia de poder levá-lo junto com a Bíblia, cadernos para escrever e livrinhos de orações.
A minha relação com a poesia é complicada. Tenho dificuldade em lê-la, porque por norma entendo pouco o que ela diz. Desde a escola que tenho essa dificuldade. Quando me pediam para analisar um poema era um custo. Convenci-me que sou muito linear nas interpretações que faço. Actualmente acho que o mal foi o sistema de ensino, o azar que tive em ter professores que não nos ensinaram a sermos criativos e imaginativos. A disciplina de Português devia ser dividida em duas partes: uma seria a técnica da língua e a outra a descoberta do prazer de ler. Ler poemas devia ser ocasião para os alunos aprenderem a usar a língua como veículo para a liberdade.
Foi preciso eu sair da escola para aprender a gostar de ler poemas e começar a escrever, tanto em verso como em prosa. Escrevi muita rima, não me atrevo a chamar poesia àquilo, como pode ser verificado na colónia deste reino. Escrevi por muito tempo para exorcizar as minhas tristezas, para passar da adolescência para o estado adulto. Agora raramente escrevo versos.
Voltando ao livro que pretendo ler nas férias, se tiver silêncio interior para tal. Quando regressava a casa depois de comprar o livro, li o primeiro poema e achei que o devia deixar aqui para vosso proveito.
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um túmulo
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
Por outro lado, a nossa casa de férias é minúscula, vou estar em maior contacto com o meu pai e sujeito às suas traquinices que costumas ficar marcadas na pele e músculo. Terá que haver uma redefinição dos espaços. Toda essa adaptação leva tempo e tem o preço de mais nervos. Não poderei andar livremente pelos campos porque a minha mãe tem medo que alguém ou anima me faça mal.
Assim sendo, férias, férias seria se eu fizesse férias da minha família. Do trabalho poucas férias preciso, é mais da família, e isso não poderei ter naturalmente. Até me custa pensar na eventualidade de um dia viver sem eles. O que vai ser de mim?
As mudemos de assunto, pois o que me levou a escrever não é nada triste. No sábado passado comprei um livro que espero levar para ler nas férias. Tive muito sorte ou foi Deus que me encaminhou até ele.
Nos últimos tempos tenho adquirido alguma curiosidade pelo padre José Tolentino Mendonça. Um eminente teólogo, que também é poeta, escritor. Queria conhecer a sua poesia e por isso tinha o nome dele arquivado na minha memória para uma ida à Fanc. Estava a sair da secção dos livros quando dei de caras com o livro A Noite Abre Meus Olhos.

Este livro é a compilação num só livro dos primeiros livros de poesia dele. Um bolo com uma cereja no topo. De uma assentada fico com uma parte considerável da sua obra e com muita poesia espiritualmente inspirada. Para além de ser em formato de bolso, o que ma dá a garantia de poder levá-lo junto com a Bíblia, cadernos para escrever e livrinhos de orações.
A minha relação com a poesia é complicada. Tenho dificuldade em lê-la, porque por norma entendo pouco o que ela diz. Desde a escola que tenho essa dificuldade. Quando me pediam para analisar um poema era um custo. Convenci-me que sou muito linear nas interpretações que faço. Actualmente acho que o mal foi o sistema de ensino, o azar que tive em ter professores que não nos ensinaram a sermos criativos e imaginativos. A disciplina de Português devia ser dividida em duas partes: uma seria a técnica da língua e a outra a descoberta do prazer de ler. Ler poemas devia ser ocasião para os alunos aprenderem a usar a língua como veículo para a liberdade.
Foi preciso eu sair da escola para aprender a gostar de ler poemas e começar a escrever, tanto em verso como em prosa. Escrevi muita rima, não me atrevo a chamar poesia àquilo, como pode ser verificado na colónia deste reino. Escrevi por muito tempo para exorcizar as minhas tristezas, para passar da adolescência para o estado adulto. Agora raramente escrevo versos.
Voltando ao livro que pretendo ler nas férias, se tiver silêncio interior para tal. Quando regressava a casa depois de comprar o livro, li o primeiro poema e achei que o devia deixar aqui para vosso proveito.
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um túmulo
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
Que imagem temos de Deus?
Como se pode ver por mais esta publicação ando numa onde de Metallica. Há dias vi na Wikipedia, na página do James, um pouco da sua história. Lá vinha a falar de algumas motivações para a escrita desta música que hoje mostro. A música pouco me diz, mas já o assunto, obviamente que é outra história.
No vídeo que ponho em baixo aparece uma entrevista do James a explicar a canção. Vale a pena ouvi-la.
Esta música motivou-me para escrever algo sobre a nossa imagem de Deus. Na Wikipedia vem a dizer que o James afastou-se da religião por algum tempo. Ele foi criado numa família que professava uma das muitas variantes do protestantismo. Nessa variante é suposto Deus curar tudo e por isso os médicos não são necessários. A mãe do James morreu de cancro muito nova e recusou-se sempre a ser tratada por médicos.
Está aqui uma certa imagem de Deus, que choca com a católica, embora na Igreja Católica exista gente com imagens parecidas, basta ver os exageros em Fátima. Como é que vemos Deus. É alguém todo poderoso? O que significa o poder de Deus? Aprendi nas Oficinas de Oração e Vida que Deus é Todo Poderoso, porque pode com todo o mal. É um poder de Amor e não o poder de acção. Quem espera que Deus lhe resolva todos os problemas, está à espera de um Deus super-herói, tipo Batman.
O episódio de ontem em Faro com a IURD passa por aqui. O homem que fez aqueles estragos esperava que Deus lhe resolvesse os seus problemas depois de ter dado tudo à IURD. Isto é ou não é tentar fazer de Deus um bem comerciável? Maior pecado é da IURD que pretende vender o amor de Deus.
O Amor de Deus fez-nos livres e como livres que somos, é nossa responsabilidade resolver os problemas que nos aparecem. Podemos, devemos até, pedir a Deus orientação, fé e força, mas somos nós que temos que fazer o caminho.
Aqui fica o vídeo e depois a letra da música The God that failed dos Metallica.
No vídeo que ponho em baixo aparece uma entrevista do James a explicar a canção. Vale a pena ouvi-la.
Esta música motivou-me para escrever algo sobre a nossa imagem de Deus. Na Wikipedia vem a dizer que o James afastou-se da religião por algum tempo. Ele foi criado numa família que professava uma das muitas variantes do protestantismo. Nessa variante é suposto Deus curar tudo e por isso os médicos não são necessários. A mãe do James morreu de cancro muito nova e recusou-se sempre a ser tratada por médicos.
Está aqui uma certa imagem de Deus, que choca com a católica, embora na Igreja Católica exista gente com imagens parecidas, basta ver os exageros em Fátima. Como é que vemos Deus. É alguém todo poderoso? O que significa o poder de Deus? Aprendi nas Oficinas de Oração e Vida que Deus é Todo Poderoso, porque pode com todo o mal. É um poder de Amor e não o poder de acção. Quem espera que Deus lhe resolva todos os problemas, está à espera de um Deus super-herói, tipo Batman.
O episódio de ontem em Faro com a IURD passa por aqui. O homem que fez aqueles estragos esperava que Deus lhe resolvesse os seus problemas depois de ter dado tudo à IURD. Isto é ou não é tentar fazer de Deus um bem comerciável? Maior pecado é da IURD que pretende vender o amor de Deus.
O Amor de Deus fez-nos livres e como livres que somos, é nossa responsabilidade resolver os problemas que nos aparecem. Podemos, devemos até, pedir a Deus orientação, fé e força, mas somos nós que temos que fazer o caminho.
Aqui fica o vídeo e depois a letra da música The God that failed dos Metallica.
Pride you took
Pride you feel
Pride that you felt when you'd kneel
Not the word
Not the love
Not what you thought from above
It feeds (it feeds)
It grows (it grows)
It clouds all that you will know
Deceit
Deceive
Decide just what you believe
I see faith in your eyes
Never you hear the discouraging lies
I hear faith in your cries
Broken is the promise, betrayal
The healing hand held back by the deepened nail
Follow the god that failed
Find your peace
Find your say
Find the smooth road on your way
Trust you gave
A child to save
Left you cold and him in grave
It feeds (it feeds)
It grows (it grows)
It clouds all that you will know
Deceit
Deceive
Decide just what you believe
I see faith in your eyes
Never you hear the discouraging lies
I hear faith in your cries
Broken is the promise, betrayal
The healing hand held back by the deepened nail
Follow the god that failed
(solo)
I see faith in your eyes
Broken is the promise, betrayal
The healing hand held back by the deepened nail
Follow the god that failed
Pride you took
Pride you feel
Pride that you felt when you'd kneel
Trust you gave
A child to save
Left you cold and him in grave
I see faith in your eyes
Never your hear the discouraging lies
I hear faith in your cries
Broken is the promise, betrayal
The healing hand held back by the deepened nail
Follow the god that failed
Follow the god that failed
Broken is the promise
Betrayal, betrayal
terça-feira, 13 de julho de 2010
Em casa de ferreiro espeto de pau
Nos últimos tempos estive a reler os três livros do Senhor dos Anéis. Na parte final do Regresso do Rei reparei num pormenor que me escapara antes. Várias vezes é referido que o povo do Shire não reconheceu o heroísmo do Frodo e do Sam. Eles iriam ter uma pequena participação no anais da história dos hobbits ao contrário do Merry e do Pippin, cuja acção no regresso da Guerra do Anel foi decisiva para repor a normalidade no Shire.
Para quem só viu os filmes, tenho que esclarecer que estes cortaram duas partes substanciais dos livros. Uma delas foi a que diz respeito ao que estou a escrever aqui. Nos livros Saruman não morre em Isengard, atirado da torre abaixo pelo Língua de Verme. Nos livros ele fica lá preso à guarda dos Ents, mas acaba por ir embora. Vai embora e dirige-se para o Shire. Subverte tudo lá e quando os quatro hobbits regressam encontram o Shire muito mudado e quase destruído. Os sequazes do Saruman impuseram uma ditadura e aquele lugar belo e pacato transformou-se numa zona industrial à semelhança do que ele fizera em Isengard. Árvores cortadas. Rios poluídos. Degradação e decadência.
Quando os quatro hobbits chegam e deparam-se com este cenário organizam uma sublevação. Quem comanda a rebelião são o Merry e o Pippin, um deles virá a ser o Barão do Shire mais tarde. O Frodo tanta resolver a situação sem violência, mas só consegue até certo ponto. A sua participação é discreta.
O peso do efeito maléfico do Anel deixou-o marcado para sempre. Regressar a casa não o curou. A sua missão já tinha sido cumprida. Dera tudo pela destruição do Anel, salvara milhares ou milhões de vidas, contribuíra para haver futuro, para que o Shire se mantivesse um sítio pacato, mesmo tendo sofrido aquela malfeitoria do Saruman. Todo o mundo tinha-lhe uma grande dívida de gratidão. Os reinos dos Homens, dos Anões e dos Elfos reconheciam os seus feitos e os dos outros três hobbits, mas na sua própria terra não. Pareceu-me injusto, mas vendo bem, o Shire já era assim antes. O Frodo deu a sua vida para que nada mudasse. Também foi por isso para decidiu partir e seguir os Elfos.
Para quem só viu os filmes, tenho que esclarecer que estes cortaram duas partes substanciais dos livros. Uma delas foi a que diz respeito ao que estou a escrever aqui. Nos livros Saruman não morre em Isengard, atirado da torre abaixo pelo Língua de Verme. Nos livros ele fica lá preso à guarda dos Ents, mas acaba por ir embora. Vai embora e dirige-se para o Shire. Subverte tudo lá e quando os quatro hobbits regressam encontram o Shire muito mudado e quase destruído. Os sequazes do Saruman impuseram uma ditadura e aquele lugar belo e pacato transformou-se numa zona industrial à semelhança do que ele fizera em Isengard. Árvores cortadas. Rios poluídos. Degradação e decadência.
Quando os quatro hobbits chegam e deparam-se com este cenário organizam uma sublevação. Quem comanda a rebelião são o Merry e o Pippin, um deles virá a ser o Barão do Shire mais tarde. O Frodo tanta resolver a situação sem violência, mas só consegue até certo ponto. A sua participação é discreta.
O peso do efeito maléfico do Anel deixou-o marcado para sempre. Regressar a casa não o curou. A sua missão já tinha sido cumprida. Dera tudo pela destruição do Anel, salvara milhares ou milhões de vidas, contribuíra para haver futuro, para que o Shire se mantivesse um sítio pacato, mesmo tendo sofrido aquela malfeitoria do Saruman. Todo o mundo tinha-lhe uma grande dívida de gratidão. Os reinos dos Homens, dos Anões e dos Elfos reconheciam os seus feitos e os dos outros três hobbits, mas na sua própria terra não. Pareceu-me injusto, mas vendo bem, o Shire já era assim antes. O Frodo deu a sua vida para que nada mudasse. Também foi por isso para decidiu partir e seguir os Elfos.
É aqui que se vê um dos aspectos cristãos desta saga. Dar a vida pela esperança de um futuro melhor. Não agir segundo os seus próprios interesses, mas por amor. Só por amor é que é possível dar a vida por todos. A passagem de Frodo e Sam pelas terras Mordor até ao cimo do Monte da Condenação parecem-se com os passos do Calvário. Jesus saiu de lá ressuscitando, Frodo saiu de diferente, mudado. O sofrimento, a crise, são o fogo de tempera o aço.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
José Saramago
Acabei de saber que o José Saramago faleceu lá longe na ilha onde estava o seu lar.
Peço a Deus que o receba na Sua infinita misericórdia.
Desejo que se entendam finalmente...
Para cultura portuguesa fica a sua obra, originalidade e abertura de novos caminhos. Cabe aos que ficam continuar...
Peço a Deus que o receba na Sua infinita misericórdia.
Desejo que se entendam finalmente...
Para cultura portuguesa fica a sua obra, originalidade e abertura de novos caminhos. Cabe aos que ficam continuar...
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Como apresentar Jesus à sociedade de actual?
Esta pergunta tem viajado na minha mente de um lado para o outro nos últimos dias. É que realmente não sei como fazer isso à minha maneira, no contexto da minha personalidade e das minhas aptidões. Sei que a evangelização é uma missão universal para todos os cristãos. O Papa quando veio cá em Maio levou grande parte da visita a dizer-nos exactamente isso: evangelizar, evangelizar, apresentar Jesus a esta Europa que se afastou dele.
O que vejo no pequeno meio onde estou inserido é que as pessoas não sentem necessidade de ter uma relação íntima com Deus. Deus é uma coisa reservada, quanto muito, para casamentos, funerais, alguns baptismos e recurso de última instância para uma aflição muito grave. Uns vivem a sua vida ignorando totalmente Deus. Outros nas dificuldades têm mais facilidade em recorrer a Nossa Senhora de Fátima com umas velinhas. Há quem tenha um deus pessoal. Há quem tenha a relação íntima com Deus substituída pela psicologia ou por uma mistura de teorias da Nova Era. Para alguns a Igreja é-lhes indiferente, para outros a Igreja é sinónimo de clero e só encontram erros e falhas para lhe apontar.
Como apresentar Deus a quem não sente necessidade de Dele?
A minha história pessoal levou-me a compreender que não faço sentido sem Deus. Deus para mim é como um cenário onde se desenrola a minha história, numa encenação vanguardista em que o público acaba por fazer parte do cenário. Já imaginei como me sentiria se me convertesse ao protestantismo ou a islamismo ou ao budismo e dei-me conta que algo dentro de mim chorava. Como é que eu podia viver sem a Bíblia, sem a Santíssima Trindade, sem a Virgem Maria, sem o Sermão da Montanha, sem a subida à Jerusalém, sem São Francisco de Assis, sem Santo Inácio de Loiola, sem Santa Teresa da Cruz (Edith Stein), sem a comunhão, sem os cânticos? A minha história com Deus tem altos baixos, mas Ele está lá. Mais facilmente viveria sem a língua portuguesa, iria descobrir Jesus noutro idioma.
Mas a minha história com Jesus vem desde sempre. Como agir com quem nunca teve nenhum ou pouco relacionamento com Ele? Como lhes dizer que ser Católico é muito mais que ir à missa e fazer o que os padres dizem para fazer? Que ser Católico é ter uma relação de intimidade com Deus através de relações verticais e horizontais? Que não faz sentido estar do lado de fora, porque há lugar para todos? Que é vital dar uma educação religiosa aos filhos, mesmo se os pais não vivenciam nenhuma religião?
(sei que estou a misturar coisas diferentes: quem não é católico, mas vai para outras religiões e quem não tem religião, mas é todos que a missão destina, não é?)
Só encontro perguntas. Gostaria de encontrar de vez em quando respostas, mas talvez não caiba a mim encontrá-las… talvez não caiba a mim chegar a muitos… talvez só a poucos… talvez ainda não tenha começado a minha participação… talvez a minha vida esteja ainda em preparação para algo… por enquanto só tenho perguntas a viajar na minha mente…
O que vejo no pequeno meio onde estou inserido é que as pessoas não sentem necessidade de ter uma relação íntima com Deus. Deus é uma coisa reservada, quanto muito, para casamentos, funerais, alguns baptismos e recurso de última instância para uma aflição muito grave. Uns vivem a sua vida ignorando totalmente Deus. Outros nas dificuldades têm mais facilidade em recorrer a Nossa Senhora de Fátima com umas velinhas. Há quem tenha um deus pessoal. Há quem tenha a relação íntima com Deus substituída pela psicologia ou por uma mistura de teorias da Nova Era. Para alguns a Igreja é-lhes indiferente, para outros a Igreja é sinónimo de clero e só encontram erros e falhas para lhe apontar.
Como apresentar Deus a quem não sente necessidade de Dele?
A minha história pessoal levou-me a compreender que não faço sentido sem Deus. Deus para mim é como um cenário onde se desenrola a minha história, numa encenação vanguardista em que o público acaba por fazer parte do cenário. Já imaginei como me sentiria se me convertesse ao protestantismo ou a islamismo ou ao budismo e dei-me conta que algo dentro de mim chorava. Como é que eu podia viver sem a Bíblia, sem a Santíssima Trindade, sem a Virgem Maria, sem o Sermão da Montanha, sem a subida à Jerusalém, sem São Francisco de Assis, sem Santo Inácio de Loiola, sem Santa Teresa da Cruz (Edith Stein), sem a comunhão, sem os cânticos? A minha história com Deus tem altos baixos, mas Ele está lá. Mais facilmente viveria sem a língua portuguesa, iria descobrir Jesus noutro idioma.
Mas a minha história com Jesus vem desde sempre. Como agir com quem nunca teve nenhum ou pouco relacionamento com Ele? Como lhes dizer que ser Católico é muito mais que ir à missa e fazer o que os padres dizem para fazer? Que ser Católico é ter uma relação de intimidade com Deus através de relações verticais e horizontais? Que não faz sentido estar do lado de fora, porque há lugar para todos? Que é vital dar uma educação religiosa aos filhos, mesmo se os pais não vivenciam nenhuma religião?
(sei que estou a misturar coisas diferentes: quem não é católico, mas vai para outras religiões e quem não tem religião, mas é todos que a missão destina, não é?)
Só encontro perguntas. Gostaria de encontrar de vez em quando respostas, mas talvez não caiba a mim encontrá-las… talvez não caiba a mim chegar a muitos… talvez só a poucos… talvez ainda não tenha começado a minha participação… talvez a minha vida esteja ainda em preparação para algo… por enquanto só tenho perguntas a viajar na minha mente…
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Rescaldo da visita do Santo Padre a Portugal
Os dias da visita do Papa da Portugal foram para mim um momento especial nestes últimos tempos. Andava um pouco em baixo e a sua visita veio dar-me uma energia nova. Recebemos um novo sopro do Espírito Santo, acho que me coube uma pequena quota parte. Pelo Espírito, através dos seus enviados, na pessoa do meu colega, fui levado à missa no Terreiro do Paço. E de lá vim um pouco mais alimentado.
Para mim, a visita do Papa representou esta nova energia e a descoberta de um especial carinho por ele. Uma semana antes ele era-me indiferente. Era o Papa, uma figura longínqua lá de Roma, que fala muitas línguas com um sotaque engraçado. Antes da visita intui que a sua visita seria semelhante à de um Apóstolo a visitar uma comunidade. Vivi isso ao pé do Tejo.
Com o peso mediático destes dias descobri uma personalidade que me agrada, com a qual me identifico. Admiro-o pela sua capacidade intelectual, pelo gosto pela música, por ser professor e teólogo. Admiro-o, com uma inveja positiva, se é que isso é possível, por saber latim e grego antigo, por puder ler grande parte dos pensadores clássicos na língua em que escreveram. Ainda não conheço o seu pensamento teológico, mas acredito que não é grave, sei que Jesus está no centro e isso m basta.
Vou ler com atenção os discursos e homilias destes dias, pois descobri que não posso ouvir o que tem a dizer e fixar uma ideia central. Na missa do Terreiro do Paço dei por mim no final da homilia sem saber o que ele disse. Será mau? Em parte sim, mas por outro lado sei que o meu coração o ouviu, pois estava em comunhão com ele. O meu amor pela Igreja aumentou. E quero ler o que ele disse e talvez alguns dos seus livros.
Mas tal como eu, sei que isso aconteceu a muita gente. Bastou ouvir as reportagens radiofónicas ao longos dos dias. São poucas as pessoas habilitadas a comentarem no imediato o que foi dito. Esta visita foi muito mais emotiva do que doutrinária, do que catequética. O Espírito Santo soprou por onde quis, rezo para que dê muitos frutos.
Vou ler com redobrada atenção o discurso do encontro com a cultura. Se eu pretendo crescer na arte da escrita, devo prestar atenção ao que lá foi dito.
O Santo Padre está lá no seu lar. Nós continuamos com a crise. A visita não a piorou, talvez tenha até dado algum alento a algumas pessoas. E as sementes deverão ir germinando.
Para mim, a visita do Papa representou esta nova energia e a descoberta de um especial carinho por ele. Uma semana antes ele era-me indiferente. Era o Papa, uma figura longínqua lá de Roma, que fala muitas línguas com um sotaque engraçado. Antes da visita intui que a sua visita seria semelhante à de um Apóstolo a visitar uma comunidade. Vivi isso ao pé do Tejo.
Com o peso mediático destes dias descobri uma personalidade que me agrada, com a qual me identifico. Admiro-o pela sua capacidade intelectual, pelo gosto pela música, por ser professor e teólogo. Admiro-o, com uma inveja positiva, se é que isso é possível, por saber latim e grego antigo, por puder ler grande parte dos pensadores clássicos na língua em que escreveram. Ainda não conheço o seu pensamento teológico, mas acredito que não é grave, sei que Jesus está no centro e isso m basta.
Vou ler com atenção os discursos e homilias destes dias, pois descobri que não posso ouvir o que tem a dizer e fixar uma ideia central. Na missa do Terreiro do Paço dei por mim no final da homilia sem saber o que ele disse. Será mau? Em parte sim, mas por outro lado sei que o meu coração o ouviu, pois estava em comunhão com ele. O meu amor pela Igreja aumentou. E quero ler o que ele disse e talvez alguns dos seus livros.
Mas tal como eu, sei que isso aconteceu a muita gente. Bastou ouvir as reportagens radiofónicas ao longos dos dias. São poucas as pessoas habilitadas a comentarem no imediato o que foi dito. Esta visita foi muito mais emotiva do que doutrinária, do que catequética. O Espírito Santo soprou por onde quis, rezo para que dê muitos frutos.
Vou ler com redobrada atenção o discurso do encontro com a cultura. Se eu pretendo crescer na arte da escrita, devo prestar atenção ao que lá foi dito.
O Santo Padre está lá no seu lar. Nós continuamos com a crise. A visita não a piorou, talvez tenha até dado algum alento a algumas pessoas. E as sementes deverão ir germinando.
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terça-feira, 11 de maio de 2010
Estive lá
Hoje, logo cedo, quando acordei não esperava ter o dia que tive. Comecei o dia bastante amargurado, com o céu mental bastante nublado. Rezei, como sempre faço de manhã e iniciei o dia.
No trabalho um colega disse que ia à missa no Terreiro do Paço com a mulher dele. Perguntou-me se ia. Pensei um pouco e resolvi ir, se não chovesse.
Não choveu.
Saímos do trabalho às cinco e chegámos ao Campo das Cebolas com o papa-móvel a chegar aos Restauradores. Tivemos sorte com a escolha do local. Havia um écran gigante e ainda se conseguia ver um pouco da estrutura do altar, incluindo a cátedra. Por isso posso dizer que vi o Papa, mesmo que ao longe. Faz lembrar aquela passagem dos Actos dos Apóstolos que a multidão procura os Apóstolos e alguns só se contentam em apanharem um pouco da sua sombra. Para mim bastou-me vê-lo lá longe, estivemos juntos.
Durante os minutos de reflexão depois da homilia veio-me uma conclusão à mente. O dia de hoje foi comandado por alguém, que não este que vos escreve. Eu tinha nas últimas semanas pensado em estar presente na missa, mas como a empresa não fechou, nem mostrou qualquer sinal de nos pôr à consideração irmos ou não, eu fui me conformando e não importando em acompanhar pela televisão. Por isso ao acordar de manhã não pensava em ir ao Terreiro do Paço. Achava que não tinha tempo de ir depois do trabalho. Mas Jesus quis que eu fosse. Só posso concluir isso.
Foi uma celebração bonita. O tempo passou rápido. Não me custou nada ter ficado duas horas em pé, virado para o sol. A música, os cânticos embalaram e entusiasmaram-me. Recebi um livrinho com todos os passos da celebração. Gostei. Vi no écran dois cantores da minha paróquia e no final o meu pároco. Esteve um ambiente muito bom, pacífico e alegre. O Espírito Santo esteve ali unindo-nos.
E depois gostei do Papa. Aos poucos, à medida que vou conhecendo a sua história e personalidade, vou gostando mais dele. Revejo-me mais nele do que o anterior, apesar de João Paulo II ter sido quem foi. Eu sou mais do género do Bento XVI, recatado, tímido, com gosto por música, pela intelectualidade. Achei incrível a forma como ele lê o português, fluente, com ritmo e sem enganos. Já não posso dizer o mesmo de mim. A maneira como leu em latim foi quase musical, belíssima. Notou-se que estava feliz e bem-disposto.
Que mais posso dizer? Foi um dia incrível.
No final estive a metros de conseguir um autografo do Nuno Gomes. Ele dirigia-se para o autocarro do Benfica que, pelos visto, o trouxera com uma grupo de crianças do clube. Uma curiosidade engraçada. Também lá estava um autocarro do Sporting.
Já cá em casa, achei tocante e carinhoso o que aconteceu em frente à Nunciatura e estou certo que o Papa estava bastante sensibilizado com o gesto dos nossos jovens. Foi bonito.
No trabalho um colega disse que ia à missa no Terreiro do Paço com a mulher dele. Perguntou-me se ia. Pensei um pouco e resolvi ir, se não chovesse.
Não choveu.
Saímos do trabalho às cinco e chegámos ao Campo das Cebolas com o papa-móvel a chegar aos Restauradores. Tivemos sorte com a escolha do local. Havia um écran gigante e ainda se conseguia ver um pouco da estrutura do altar, incluindo a cátedra. Por isso posso dizer que vi o Papa, mesmo que ao longe. Faz lembrar aquela passagem dos Actos dos Apóstolos que a multidão procura os Apóstolos e alguns só se contentam em apanharem um pouco da sua sombra. Para mim bastou-me vê-lo lá longe, estivemos juntos.
Durante os minutos de reflexão depois da homilia veio-me uma conclusão à mente. O dia de hoje foi comandado por alguém, que não este que vos escreve. Eu tinha nas últimas semanas pensado em estar presente na missa, mas como a empresa não fechou, nem mostrou qualquer sinal de nos pôr à consideração irmos ou não, eu fui me conformando e não importando em acompanhar pela televisão. Por isso ao acordar de manhã não pensava em ir ao Terreiro do Paço. Achava que não tinha tempo de ir depois do trabalho. Mas Jesus quis que eu fosse. Só posso concluir isso.
Foi uma celebração bonita. O tempo passou rápido. Não me custou nada ter ficado duas horas em pé, virado para o sol. A música, os cânticos embalaram e entusiasmaram-me. Recebi um livrinho com todos os passos da celebração. Gostei. Vi no écran dois cantores da minha paróquia e no final o meu pároco. Esteve um ambiente muito bom, pacífico e alegre. O Espírito Santo esteve ali unindo-nos.
E depois gostei do Papa. Aos poucos, à medida que vou conhecendo a sua história e personalidade, vou gostando mais dele. Revejo-me mais nele do que o anterior, apesar de João Paulo II ter sido quem foi. Eu sou mais do género do Bento XVI, recatado, tímido, com gosto por música, pela intelectualidade. Achei incrível a forma como ele lê o português, fluente, com ritmo e sem enganos. Já não posso dizer o mesmo de mim. A maneira como leu em latim foi quase musical, belíssima. Notou-se que estava feliz e bem-disposto.
Que mais posso dizer? Foi um dia incrível.
No final estive a metros de conseguir um autografo do Nuno Gomes. Ele dirigia-se para o autocarro do Benfica que, pelos visto, o trouxera com uma grupo de crianças do clube. Uma curiosidade engraçada. Também lá estava um autocarro do Sporting.
Já cá em casa, achei tocante e carinhoso o que aconteceu em frente à Nunciatura e estou certo que o Papa estava bastante sensibilizado com o gesto dos nossos jovens. Foi bonito.
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segunda-feira, 8 de março de 2010
Há Esperança
Há esperança.
As olaias começam a florir (neste ano as primeira flores vieram mais tarde, ver mensagem do anos passado), a Primavera está perto e este longo Inverno está a chegar ao fim.
Tal como pelos sinais da natureza dias melhores se aproximam, quais sãos os sinais que tu, meu leitor, encontras nas tua vida que indiquem que o Senhor está perto?
As olaias começam a florir (neste ano as primeira flores vieram mais tarde, ver mensagem do anos passado), a Primavera está perto e este longo Inverno está a chegar ao fim.
Tal como pelos sinais da natureza dias melhores se aproximam, quais sãos os sinais que tu, meu leitor, encontras nas tua vida que indiquem que o Senhor está perto?
sábado, 6 de março de 2010
Eu perante o desafio
Eu tenho ouvido e rezado todos os dias através do mp3 do Passo-a-Rezar. Tem sido uma ajuda nestes dias difíceis.
Na oração de ontem, dia 5 de Março, Deus disse-me a forma de encarar construtivamente as pessoas que nos desagradam, que nos irritam ou incomodam. Tenho duas opções. Pergunto porquê que tenho que aturá-las, conviver com elas e reagir afastando-me. Ou analiso o porquê do desagrado, irritação ou incómodo. Essa pessoa é assim, desta forma. De acordo com os meus padrões ela está errada. Analiso os meus padrões. Estarei a ser justo? Não estarei a pecar pensando mal dela? Depois tenho que fazer duas coisas: o que fazer em relação a essa pessoa e o que fazer em relação a mim. Posso tratá-la com mais respeito. Talvez aproximar-me o suficiente para que ela com a convivência inicie um processo de auto-análise. Em relação a mim, tenho que procura mudar comportamentos semelhantes e deixar de fazer julgamentos.
A mensagem de Jesus aponta para procurar o bem, o construtivo, de tudo, mesmo do mal. Perante uma pessoa com comportamentos maus, perante uma catástrofe (e temos tido bastantes ultimamente) devo questionar-me: estou a ser fiel a Deus? estou a ser bom com os outros? estou a crescer como Deus quer?
Na oração de ontem, dia 5 de Março, Deus disse-me a forma de encarar construtivamente as pessoas que nos desagradam, que nos irritam ou incomodam. Tenho duas opções. Pergunto porquê que tenho que aturá-las, conviver com elas e reagir afastando-me. Ou analiso o porquê do desagrado, irritação ou incómodo. Essa pessoa é assim, desta forma. De acordo com os meus padrões ela está errada. Analiso os meus padrões. Estarei a ser justo? Não estarei a pecar pensando mal dela? Depois tenho que fazer duas coisas: o que fazer em relação a essa pessoa e o que fazer em relação a mim. Posso tratá-la com mais respeito. Talvez aproximar-me o suficiente para que ela com a convivência inicie um processo de auto-análise. Em relação a mim, tenho que procura mudar comportamentos semelhantes e deixar de fazer julgamentos.
A mensagem de Jesus aponta para procurar o bem, o construtivo, de tudo, mesmo do mal. Perante uma pessoa com comportamentos maus, perante uma catástrofe (e temos tido bastantes ultimamente) devo questionar-me: estou a ser fiel a Deus? estou a ser bom com os outros? estou a crescer como Deus quer?
Ponto da situação
Para os meus leitores habituais deve-se notar um certo silêncio meu. Pela primeira vez falhei uma reflexão de domingo. O que se passou foi uma conjugação de factores. O neurologista do meu pai receitou-lhe um anti-psicótico no intuito de controlar-lhe os episódios de agressividade, mas o efeito foi quase catastrófico. O meu pai não tinha alucinações, nem ficava tão confuso que procurasse fugir de casa. O efeito deste medicamento provocou-lhe isso. Como é uma pessoa naturalmente teimosa foi um inferno. Parámos o medicamento e os dias seguintes foram piores. Passou duas ou três noites, nem sei bem, sem dormir. No fim do episódio ele esteve uma noite inteira o dia seguinte a andar cá em casa da sala para o corredor, do corredor para a cozinha, à procura de uma saída. Estivemos o tempo todo com os estores fechados e a porta da casa fechada à chave.
Andámos desesperados. No domingo passado para além de não ter tido tranquilidade mental para preparar as leituras do dia, esteve a chover à hora de ir à missa habitual. Fui à seguinte, mas isso baralhou-me a rotina de escrita aqui e o ânimo não estava para esforços.
Peço desculpa.
Hoje estou a escrever cedo porque o meu pai fez barulho à seis da manhã e acabei por despachar-me mais depressa. Estou aqui a escrever, enquanto a minha mãe foi à praça. Vamos ver como o dia de hoje corre. Desde que ele não fique obcecado com voltar para a casa da infância, está tudo bem.
(só publico agora porque fui ao supermercado)
Andámos desesperados. No domingo passado para além de não ter tido tranquilidade mental para preparar as leituras do dia, esteve a chover à hora de ir à missa habitual. Fui à seguinte, mas isso baralhou-me a rotina de escrita aqui e o ânimo não estava para esforços.
Peço desculpa.
Hoje estou a escrever cedo porque o meu pai fez barulho à seis da manhã e acabei por despachar-me mais depressa. Estou aqui a escrever, enquanto a minha mãe foi à praça. Vamos ver como o dia de hoje corre. Desde que ele não fique obcecado com voltar para a casa da infância, está tudo bem.
(só publico agora porque fui ao supermercado)
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal
Oh, como gostaria de ter uma avó e passar esta noite da consoada numa aldeia onde o frio vê-se na alvorada com geada. Gostaria de ter uma família grande, de me sentir constrangido na presença de alguns que só nestas ocasiões veria. Ter crianças à volta exitadíssimas com com a reunião e com a perspectiva de receberem as prendas. Gostaria de me sentir sem vontade nenhuma de ir à Missa do Galo, mas ir na mesma e talvez levar um priminho a dormir no colo no regresso.
Gostaria de não ter o meu pai cada vez mais incapacitado, de ter a minha mãe cada vez mais esgotada e cansada, de não me sentir tão triste e sozinho.
O que fiz pelo outros neste Natal? Só umas mensagens de sms para os meus colegas e amigos. Uns mails e uns postais electrónicos ontem.
Bem que gostaria de me sentir em comunhão com os meus colegas e amigos, mas não me sinto. A única coisa positiva que sinto é que a minha fé num futuro melhor cresceu. Olho para estes dias e vejo, desejo, que um dia eu seja feliz. Talvez isso tenha sido sentido por algum daqueles pastores que seguiram o conselho dos anjos.
Um futuro melhor.
A todos os que por acaso aqui passem, desejo um Santo Natal.
Gostaria de não ter o meu pai cada vez mais incapacitado, de ter a minha mãe cada vez mais esgotada e cansada, de não me sentir tão triste e sozinho.
O que fiz pelo outros neste Natal? Só umas mensagens de sms para os meus colegas e amigos. Uns mails e uns postais electrónicos ontem.
Bem que gostaria de me sentir em comunhão com os meus colegas e amigos, mas não me sinto. A única coisa positiva que sinto é que a minha fé num futuro melhor cresceu. Olho para estes dias e vejo, desejo, que um dia eu seja feliz. Talvez isso tenha sido sentido por algum daqueles pastores que seguiram o conselho dos anjos.
Um futuro melhor.
A todos os que por acaso aqui passem, desejo um Santo Natal.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Encruzilhada, impasse, whatever
É assim que me sinto, num impasse, numa encruzilhada, algo do género que gera em mim vazio, apreensão e um montão de outros conceitos parecidos. Das minhas leituras d'Os Maias tenho a palavra, agora em desuso, blague, se é que alguma vez foi de uso corrente.
Tudo isto gera em mim cansaço. Mais metafísico do que material, mais espiritual do que psicológico, mas também psicológico. Sinto-me como que numa ressaca depois da euforia. Quando é que foi ela?
Esta encruzilhada afigura-se-me como aquele ponto onde muitos deixaram de ter fé. Onde muitos deixaram de ser não praticantes, para serem agnósticos ou sem religião. Sinto-me terrivelmente como Jesus terá se sentido (perdoem-me a comparação) perante o judaísmo. Vazio. Ritos vazios. O povo ama-Me com os lábios, mas não com o coração. Eu sou assim. As minhas orações, apesar dos meus esforços, são vãs e distraídas repetições, sobretudo o terço. São momentos de encontro familiar, mas também de viagem mental para o meu mundo, umas vezes povoados de histórias que vou desenvolvendo, outras de preocupações (doença dos meus pais, trabalho), mas também viagens pelo cantr ou hattick ou uma qualquer série que sigo.
Todo o esforço que faço para aprofundar a oração acaba por afundar-se na rotina, no vazio. Até mesmo a meia hora sagrada que faço todas as manhãs ao levantar começa a ser atacada pela minha mente delirante. Não consigo controlar os meus pensamentos. Não consigo concentrar-me. Nem as técnicas de relaxamento funcionam funcionam mais. O que me vale é ler todos os dias um capítulo da Bíblia e depois escrever um apontamento sobre ele.
Estou finalmente a sucumbir. É a doença do meu pai. Aí está uma causa próxima. Outra está na educação superprotectora dos meus pais, sobretudo da minha mãe. Não estou preparado para o mundo onde vivo. Sou comodista e egoísta. A situação na empresa é causa e começo a sentir no meu desempenho aquilo que muita gente fala das equipas de futebol: os problemas de balneário influenciam o rendimento dos jogadores. É muita pressão. Ter internet também não tem ajudado. Tenho menos tempo para aquilo que me faz mais feliz que é escrever na minha saga. Desde as férias devo ter escrito somente numas cinco ou seis noites e num fim-de-semana. Tenho medo de morrer e deixar aquilo incompleto. Não penso morrer tão cedo, mas nunca se sabe.
Neste momento tenho várias preocupações. Duas delas são do mais estúpido que pode haver: pedir o cartão de cidadão, porque em Dezembro o BI expira e saber se envio um postal e uma boneca para a minha afilhada da Helpo. Qualquer pessoa normal não veria problema nenhum nestes assuntos, mas eu não...
Tudo isto porque ando inquieto. Sinto que a minha relação com Deus está em crise. Todos o dias me pede aquilo que não quero dar. Há que ser realista. Eu podia participar nas actividades da paróquia. Ser voluntário na conferência vicentina. Quem sabe ser até acólito. Não sou porque não quero. Porque ponho outras coisas à frente disso. Porque não quero andar de noite, pois só de noite é que há as reuniões na paróquia. Porque não quero que a minha mãe fique preocupada. Se eu tivesse verdadeiramente fé, não teria medo. E o que mais eu tenho é medo. Medo da mudança. Medo de me doar e sofrer depois. Medo da rejeição. Medo do desprezo. Medo da humilhação.
O que vai ser de mim quando os meus pais morrerem? Vou estar absolutamente só. Serei aquele rico que foi ter com Jesus. Era cumpridor da lei, mas era muito rico. Eu estou cheio de tralhas. Não sou capaz de viver sem medo. Também, a bem da verdade, não sou capaz de viver sem Jesus na minha vida. Será mais uma rotina? Fará Ele parte de mim tal como os meus medos, as minhas preocupações, vícios e manias, tralhas?
Ouço falar de pessoas felizes mesmo no meio do sofrimento. Foram, são felizes apesar do sofrimento, porque tinham fé, porque viviam no amor, pelo amor de Deus. Como se faz isso?
A minha fé tem duas faces. Tenho fé porque quero ter. É uma vontade minha. Não suporto a ideia de não ter fé. Quero porque ela é parte daquilo que sou, explica-me, é o cenário onde existo. A outra face é o intelecto. Tenho fé até ao ponto em que intelectualmente chego. Tenho dificuldade em entender e reflectir na minha vivência a alegria cristã. A minha fé não me vem do coração e por não vir, talvez me sinta da forma com tenho descrito, já que sou emocional em quase tudo o resto.
Gostava de ter a fé de quem vai a pé a Fátima. De quem se emociona com o sofrimento alheio. De quem reza o terço sem sentir que está a fazer algo vazio de sentido.
Como posso amar a Deus com todas as minhas forças e todo o meu entendimento? Como posso amar o próximo como a mim mesmo, se nem gosto de mim?
Como posso traduzir estes mandamentos na minha vida diária?
Como posso amar quem me irrita?
O que é isso de amar? O que é?
Como é que a Palavra me pode alimentar se tudo o que leio é: abre-te aos outros? Entrega-te? Ama?
Será isto a noite escura de que falava São João Cruz? Não. Não me posso equiparar a algo tão elevado. Simplesmente é uma crise de fé. A encruzilhada por onde os descentes passaram e seguiram no sentido descendente. É aqui que o Purgatório partilha terrenos com o Inferno.
Este texto foi escrito no sábado passado à noite,
depois senti-me em paz
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Separar as águas
Pegando no tema do momento: a parva e eficaz operação de marketing do Saramago, vou tentar separar as águas. Em primeiro lugar é quase sagrada a liberdade de expressão, opinião para mim. Ninguém deve ser proibido de pensar e dizer o que pensa, mesmo que seja a maior idiotice (tal é o caso do nosso Nobel). Se alguém abusa da liberdade deve assumir as consequências. Quando ofende alguém, deve pedir desculpa ou sujeitar-se a um processo judicial. Se o caso não for de tribunal, a consequência terá que aceitar a reacção dos visados.
A minha reacção ao senhor José Saramago é dizer que o digníssimo senhor está enganado, equivocado e influenciado pelos seus medos, pré-conceitos, cego pela certeza da sua verdade, que só por teimosia é que não reconhece que é parcial e por isso sujeita ao erro. O digníssimo Nobel não tem idade, figura, feitio e talvez energia para infantilidades, para se armar em enfant terrible. Os livros dele não precisam de qualquer publicidade. Nem precisavam de mudar de grafismo da capa (prefiro o anterior). Enfim, fica mais uma vez à mostra o mau feitio e mau íntimo do senhor.
(Por outro lado, o senhor pode estar a ter uma crise de fé no seu ateísmo e estar a lutar, a estrebuchar, contra a evidência que afinal Deus existe. Para alguém tão fanático numa fé, ter uma crise pode ser motivo para ser mais fanático ainda. Tenho uma amiga que disse na cara dele que ele não era ateu, mas herege. Para ela não é possível haver ateus. Pois se não têm fé numa figura àquela chamam deus, têm fé em alguma coisa. No presente caso parece ser fé no ateísmo.)
No entanto, nada disso me vai deixar de apreciar alguns dos seus livros que já li. Talvez não leia, tão cedo, nenhum dos que ainda faltam ler, mas não quero misturar a obra com o autor. Mesmo se o autor o queira fazer. Há livros que gosto mais e outros que gosto menos. Há livros para todos os gostos, na minha opinião.
Gosto da História do Cerco de Lisboa, Todos os Nomes, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Estes são os meus preferidos. Li há anos o Ensaio Sobre a Cegueira e lembro-me de ter gostado, mas não o suficiente para comprar. Não desgostei da Jangada de Pedra, tentei relê-la no início deste ano, mas fiquei pelo caminho, outros livros surgiram mais interessantes. Não achei o Memorial do Convento assim tão espectacular como muitos. Pode ser que tenha sido por causa da edição que comprei, tinha a letra muito pequena e tive muitas vezes dor de cabeça nessa época. Tenho A Caverna e o Ensaio Sobre a Lucidez. Li ambos, mas não me tocaram. Os últimos livros deixaram-me de interessar.
A forma de ele escrever não me incomoda em nada. Tem altura de humor, coisa que para quem olha para figura do senhor não consegue adivinhar. Tem um discurso fluido, muito semelhante àquele estereótipo de pessoa idosa da aldeia que vai contando uma história aparentemente curta, mas que alonga com apartes, considerações, alusões a outras histórias, mas nunca se perde. O Saramago escritor faz isso. Detalha o pormenor e é muito inventivo. Escreve simples, mas aparenta ser muito complicado.
Gosto do Saramago escritor. Evito quando o escritor escreve sobre Deus, Religião e Fé. Não gosto do Saramago cidadão. Há que separar as águas. Da mesma forma gosto bastante da música do Wagner e não aprecio a filosofia que ele defendeu e mesmo o seu feitio. Gosto da música do Paganini, mas nem quero saber se ele fez mesmo um pacto com o Diabo ou não.
A obra é a obra, o homem é o homem. Por mais que o homem derrame a sua essência na obra, acredito que a obra acabará por ser o melhor que ele fez. E tal como para o contacto com a Bíblia é preciso contextualizar, interpretar e ponderar bem o que está lá escrito, para o contacto com a obra de um qualquer artista temos que fazer o mesmo.
Como nota final. Não me sinto nada atingido com a acusação de que os católicos não lêem a Bíblia. Não sei bem há quanto tempo, talvez cinco ou seis anos, que ando a ler um capítulo por dia da Bíblia. Já deu para lê-la toda uma vez e neste momento já ter relido uns dois terços. Comecei com os Evangelhos e restante Novo testamento. Depois peguei no Antigo. Actualmente estou no livro de Eclesiates (ou Qohélet como agora chamam). Tenho pena que ninguém das minhas relações queira seguir-me...
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