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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nem sei que título pôr

Podia chamar-lhe inferno, mas parece-me demasiado dramático.



Ontem pensei em escrever um texto chamado “Mestre culinário”, mas não tive disponibilidade mental. Não que tenha hoje, mas preciso de “falar”. Por isso, misturo o que queria dizer com o “Mestre culinário” para lembrar o dia da Criança, de ontem, e faço o relato do meu... inferno... martírio... ou caminhada para o abismo. (lá vem o meu lado dramático, nada a fazer)



Há coisa de um mês para cá a minha mãe tem vindo a decair assustadoramente. Começou com uns sons ténues que ouvia deitada, passou para uma espécie de pulsação que não a larga. Só na rua atenuava-se. Depois vieram os mal-estares e tonturas. Foi ao médico de clínica geral, depois ao otorrino. Este mandou fazer uns exames dali a duas semanas. Foram estas duas últimas semanas. Ela piorou de tal maneira que tive mesmo que faltar três dias para estar com ela.



Estes três dias foram necessários para arranjar uma pessoa que tomasse conta dos meus pais e fizesse a lida da casa. A minha mãe tinha uma pessoa conhecida em mente e lá conseguimos tê-la cá em casa. Sem ela, não sei o que seria de nós.



Neste tempo de incapacidade da minha mãe tive que tomar conta da casa. Fiz comida. A máquina de lava roupa foi operado por mim. Apanhei roupa lavada. Fiz mais compras. Tive que desenrascar-me. Tem sido difícil, toda a minha vida foi facilitada nos assuntos domésticos. Se a minha mãe fazia, porquê eu? Adaptar-me a esta situação chateia-me, tira-me a tranquilidade, incomoda-me.



Há dias a minha mãe sentia-se mais bem-disposta e pediu-me para o jantar batata frita com um ovo mexido. Fritar as batatas foi fácil, já o ovo... Parece-me que tal como entre a generalidade das mulheres e as máquinas há conflitos, com os homens o conflito é com os ovos. Pelo menos comigo, é. Tínhamos só dois ovos no frigorífico. Tentei partir um e deu asneira. Estragou-se. Prudentemente pedi à minha mãe para partir o outro. Não consigo perceber como se faz.



Lá fui fritar o ovo (eu pensava que tinha posto óleo, mas afinal foi azeite, é o que dá usar azeite em garrafas de plástico). Fui mexer o ovo da forma como me pareceu bem e deu-se um milagre. Então não é que o ovo mexido ficou igual a um ovo mexido que eu gostava muito em criança!



Vivíamos em Caneças, num beco húmido e sombrio. Os meus primeiros anos foram passados naquela casa, naquele beco. Havia um casal de vizinhos que tinha umas hortas e uns barracões onde passavam o dia todo. Eles gostavam de mim e eu deles. Lembro-me várias coisas de lá, as minhas primeiras memórias são de lá. E uma coisa que me tem acompanhado vida fora é a memória dos ovos mexidos que me davam, numa sala com uma mesa comprida. Aqueles ovos mexidos eram magníficos, não sei se tinham temperos especiais, mas sei que eram pequenos pedaços de ovo frito. Ao longo dos anos tenho tentado convencer a minha mãe a fazer ovos daquela maneira, mas nunca consegui. E agora já sei como é. Fantástico, não?



Este foi o lado mais bem humorado do que tenho para dizer.



Na terça-feira passada a minha mãe finalmente fez os exames e o médico diagnosticou uma surdez progressiva. Dentro de cinco anos a minha mãe deverá estar surda. Recebi esta notícia com algum alívio. Há doenças dos ouvidos bem piores. O médico receitou um medicamento que irá aliviar o mal-estar e as tonturas. E sempre há aparelhos.



No entanto ela ainda não recuperou. E por mais que a senhora nos faça de comer, não é a mesma coisa. Por outro lado tenho medido a glicemia à minha mãe e está alta. Tem a parte de dentro das pálpebras pouco vermelha e isso talvez seja sinal de anemia. Talvez daí venha a explicação para fraqueza. Amanhã vai ao médico da clínica geral.



Já não bastando isto, o meu pai tem andado a fazer das dele. A noite passada foi levada a falar, não deixando a minha mãe dormir. Se esta tivesse sido a primeira vez, estaria tudo bem. Mas há várias noites que a minha mãe não dorme a noite toda. E eu tenho tido poucas.



Hoje de manhã estava muito agitado. Queria ir embora. Enfureceu-se de tal forma que todo o prédio (de dez andares) ouviu os gritos dele. Consegui sair de casa muito a custo. Passei o dia de rastos, nem a cafeína ajudou. Fui de coração partido por causa da minha mãe. Ao longo do dia fui falando com a senhora que toma conta deles e este foi um dos piores dias de sempre. Ele tornou-se violento. Ela teve que gritar mais alto do que ele. A minha mãe estava exausta. Não dizia coisa com coisa. Foi obrigada a passar o dia na minha cama. Pelos relatos que recebi ele atirou umas gavetas de um móvel para o chão, deitou abaixo um cortinado. Esfrangalhou os fones que a senhora trazia (compre outros para substituir).



Fui sabendo destas coisas ao longo do dia de trabalho. Foi um dia negro. Quando cheguei a casa ele estava sonolento e agora dorme na cama. Para cúmulo amanhã a câmara vai fazer uma intervenção nas árvores ao pé do prédio e tive que tirar o carro do sítio. Ao tentar estacionar noutro sítio risquei um carro levemente. Fiquei tão nervoso que a senhora que cuida dos meus pais levou-o para outro sítio, de onde posso ver da janela do quarto. Foi um risco pequeno, mas é um risco. E no meu também ficou marca, mas menor.



Por isto e por coisas parecidas ao longos destes malfadados dias, não tenho tido energia para escrever, rezar, meditar e blogar. Vamos avaliar a medicação dos meus pais, talvez não esteja a fazer o efeito devido, pelo menos no caso do meu pai. Sinto-me tão desamparado, sozinho e perdido. Sinto-me esquecido por Deus. Não tenho energia e paz de espírito para procurá-Lo. Quando estou bem, sinto-me perto Dele, mas quando estou mal... sou ao contrário de muitos. Dizem: só se lembrar de Santa Bárbara quando troveja. Eu quero que a minha oração não sejam de súplica, pelo menos para mim, mas quando estou tão desamparado peço e parece-me que não sou ouvido. Será isto a noite escura? Ou quando estou bem, quem encontro sou somente eu? Não me vejo com uma pessoa boa, que exerce a caridade que Jesus apregoa. Não me comovo com as desgraças alheias com facilidade. Se não fosse tão egoísta, não sofreria tanto. Talvez sofresse de outra forma. Que obras de fé tenho a apresentar? Se o que faço aos meus pais é considerado boa obra, faço-o em grande parte por interesse próprio. Dá jeito ter a mãe a cuidar da nossa vida. Dá jeito ter alguém dependente de nós para sentirmos que servimos para alguma coisa. Faço tantos sacrifícios para ter os meus pais bem para que o meu mundo não mude. Não quero mudar porque tenho medo do desconhecido, porque tenho preguiça em me habituar a fazer a lida da casa. Desespero porque tenho que agir, tomar decisões. Seria tão bom se houvesse sempre alguém a decidir por mim. Não faço isto conscientemente, de propósito, mas no fundo é isto que faço e desejo. Não quero crescer, quero continuar a ter a boa vida que tinha em criança.



O meu principal problema é estar demasiado centrado em mim. Odeio-me por isso. Odeio não encontrar uma solução fácil para isso. Só serei feliz se este egoísmo morrer. Mas a dor será tão grande...



Se não estiver com depressão, devo estar perto... e é isto o meu inferno. Peço desculpa pelo desabafo, não me sinto especialmente aliviado, mas aqui fica.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma longa, longa mensagem de Natal

Tenho andado com pouca disposição para a escrita, tanto aqui como nos meus projectos. Isto de andar a tirar aulas de treino de condução, mais as preocupações que isso acarreta, mais o final da convalescença da operação, mais o frio e a chuva, tudo isto e inércia inata afastaram-me das palavras e das frases. A escrita não é uma actividade natural no ser humano. O desejo que comunicação, sim. O problema é que esse desejo tem andado adormecido.

Apesar de não ter escrito, tenho pensado (é capaz de ser presunção minha dizer reflectido) sobre alguns assuntos. Aviso já que não cheguei a nenhuma conclusão. O meu pensamento (raciocínio/reflexão) não chega a tanto. Tal é a minha confusão mental que nem sei por onde começar.

Começo talvez por algo que me tocou com intensidade. A instrutora de condução disse-me esta semana que eu sou demasiado exigente comigo próprio. Na altura neguei, mas bem vistas as coisas acho que tem razão. Estou a ter estas aulas por necessidade, quero rapidamente aprender e fazer tudo bem logo. Ao perceber que o meu corpo não acompanha a aprendizagem intelectual duas coisas aconteceram: uma machadada violenta no meu ego, pois estava convencido que conseguia aprender qualquer coisa, mesmo sendo difícil; por outro lado senti-me mais tranquilo, vai levar tempo, mas chegarei lá (na altura em que ela disse-me isto eu andava um pouco em baixo porque só via os erros que fazia e não a evolução).

Ao longo das aulas fui passando por vários estados de alma: frustração, pânico, descrença, cepticismo, resignação, esperança, alívio, nervosismo, sempre e sempre o medo de errar, de causar acidentes. Nos primeiros dias a minha condução parecia de um alcoolizado. Agora não é tanto, mas direcção continua a ser um problema. Como é que é possível numa recta eu andar aos esses? Estará o mundo alcoolizado e ninguém me disse? O estado de alma actual é resignação à minha insignificância e esperança em conseguir chegar a bom porto neste empreendimento, mesmo que me custe muitas mais aulas do que estava previsto.

Este tem sido um dos temas da minha meditação (se há sinónimos ou aparentados, porque não usar?). Tem-me levado a pensar sobre a forma como me olho e quem sou. Outro tema, está relacionado com a minha personalidade, é sobre o Natal e a alegria. Como viver o Natal? O que é o Natal? O que é para um cristão o Natal? O Advento e o tempo depois propriamente chamado de Natal? Descobri que olhando em redor o Natal que vejo e acabo por viver deprime-me. Não consigo sentir-me alegre por decreto, por marca no calendário, porque os outros estão alegres.

Uma bandeira do Natal na sociedade é a família. Olho para a minha e o que vejo? Doença, sofrimento, solidão. Onde está a alegria? O meu pai ou está alucinado querendo voltar para a casa de infância (este estado pode durar em média dois dias e duas noites, sem dormir, sempre querendo ir embora e no ponto mais activo procurado a porta para ir embora) ou está cansado e dormente não querendo sair do sítio onde está. A minha mãe oscila entre o choro, a irritação com a não colaboração do meu pai, o desgosto sempre presente por causa da solidão, das canseiras e dos achaques que também tem. Eu no meio disto oscilo entre a distância que tento manter para preservar alguma lucidez ou a entrada num turbilhão de emoções (raiva, irritação, raiva e mais raiva, impotência, solidão, muita solidão). Persegue-me o fantasma de um dia herdar a mesma doença do meu pai. Tento mentalizar-me que viverei muita solidão no futuro, como sobreviverei a isto? Se não fosse a minha pouca fé, estaria bem arranjado. Provavelmente entraria para as estatísticas do suicídio.

Voltando à meditação: neste cenário onde está a alegria? Acrescento mais uma peça: a minha personalidade melancólica. O que fazer com ela perante esta necessidade de alegria? Sim, porque Jesus disse que nos quer alegres, porque afinal não temos que temer nada. Eu sou melancólico, não há nada a fazer sem violentar a minha natureza, não é? Posso ser alegre e melancólico? Triste? Só vejo uma saída: todos os meus pressupostos estão errados. O que é então a alegria cristã? Será o estado de espírito de elevação? Tem que ser algo mais. Não pode ser um sentimento, pois há pessoas propensas a uns e outras a outros. Ser alegre deve ser uma atitude perante a realidade. Será isso? Viver melancolicamente com uma atitude positiva. Parece-me uma boa meta a atingir. Não consigo andar sempre com o coração a transbordar de bom-humor, de exaltação, nem com um sorriso rasgado desde o acordar até ao deitar, nem rir ou ser a animação de uma festa.

Há dois aspectos da alegria que em faltam e fazem falta: paz interior e entrega. Quando vivo na rotina, sem preocupações, é-me fácil ser alegre, mas isto parece-me bastante egoísta. Sim, egoísta porque vivo fechado na rotina, fechado à novidade, instalado. Lamento admitir, mas dou-me pouco. São poucas as vezes em que me abrir aos outros e entreguei-me, fiz o Bem. Este lado negro desgosta-me e podem bem dizer: “ora, muda a tua atitude”. É fácil dizer, mas muito difícil fazer. Pelo menos para mim. Quando penso nestas coisas tenho dúvidas sobre se tenho realmente fé, se sou cristão sequer. Aqui lembro-me de um diálogo no livro Harry Potter e Câmara dos Segredos. O Harry questiona-se sobre se ele não estará destinado a ser um feiticeiro mau, porque tem muitas semelhanças com o Voldemort. O Director pergunta-lhe sobre o que o Chapéu Seleccionador lhe disse no primeiro ano, quando atribuiu as casas onde os alunos iam estar. O Harry disse que pedira ao Chapéu para o pôr nos Griffindor, apesar de ele ter todas a qualidade para ir para a casa conotada com os feiticeiros maus. O Chapéu fez-lhe a vontade. O Director disse-lhe que o que faz uma pessoa não são as suas características, habilidade, virtudes, mas sim as suas decisões. Eu decido-me por ser cristão, católico, apesar de não ver em mim qualidades necessárias. Insisto. Persevero. Faço caminho.

Na terça-feira coloquei no Facebook uma questão: porquê que se celebra o Natal? Só tive um comentário. É justo, a nível humano, se não participo no que os outros dizem ou fazem, porquê esperar uma reacção diferente comigo? Depois dei a minha resposta e ninguém mostrou qualquer reacção. O Natal celebra-se porque Jesus ressuscitou. O Natal está dependente da Páscoa. Sem a Páscoa o Natal não tem sentido. A alegria e esperança natalícias estão relacionadas com a ressurreição de Jesus. Celebramos o nascimento do nosso salvador, de quem nos está a ajudar a vencer a morte, o sofrimento e a atingir a felicidade.

Há uma atitude (chamar-se-á alegria?) a ter que sei intelectualmente, mas tenho dificuldades em tê-la em prática. Tudo depende do nosso olhar. Não há sofrimento. Sofremos porque o nosso olhar não está focado no Além. Se tivéssemos a atitude que Jesus teve no Calvário e na Cruz, de abandono e confiança, não sofreríamos. Porquê que não dou um sentido ao estado da minha família? À doença do meu pai? Porquê que não vejo as suas implicações e manias como um exercício necessário para crescer? Porquê que me deixo tocar pela raiva quando ele urina para o chão em vez de o fazer na sanita? Porquê que desespero perante o chora da minha mãe quando ele anda de janela em janela, porta em porta para ir embora?

Às vezes digo no escuro que é por amor que aguento isto tudo. É por amor que abdico de formar família, de ter uma juventude normal com amigos, saídas à noite, festas e convívio. Mas à luz do dia olho para mim e para a minha vida e vejo que não abdiquei de nada. Não abdiquei porque nada escolhi. Vivo assim porque é-me confortável viver assim. Vivo com os meus pais porque não me vejo a viver longe deles. Protegem-me e protejo-os. É por amor e comodismo. É por amor e medo de sair da rotina.

Então o que será alegria numa pessoa melancólica? Deve ser o mesmo que em alguém alegre: entrega e sentido para a vida. Nesta definição: serei alegre? Acho que não. Entrego-me pouco, pelo menos no sentido do relacionamento com as outras pessoas. (ouço algures no meu cérebro a voz da minha instrutora de condução: lá estás tu a ser demasiado exigente contigo próprio).

Sabem uma coisa? Não devia sentir-me triste por não ser como as outras pessoas. Não sou uma pessoa expansiva no contacto social. Não vejo a realidade da mesma forma. Isso vai trazer-me dissabores? Vai, mas mantendo-me como sou uma coisa é certa, estarei a cumprir o que Deus sonhou para mim. Quem sabe se estas deambulações melancólicas, depressivas não ajudarão alguém a ser mais autêntico e a voltar ao plano de Deus?

No Facebook disse: não dêem presentes, meus amigos, sejam presentes na vida dos outros e assim Jesus estará presente na vida deles. A quem leu isto até aqui um muito obrigado e recebam os meus votos de um Santo Natal. Desejo que sejas Jesus presente no local onde estás.

Boas festas

P.S. Fico sempre com a sensação que não disse tudo, mas isto já vai muito longo.

sábado, 16 de outubro de 2010

Saltimbanco – Cirque du Soliel

Pronto, já regressei do espectáculo. Gostei. É um dos mais antigos da companhia em digressão. Os artistas são competentes e os números também. Tem bastante humor, ainda eficaz ao fim de dezoito anos de estrada.

Das quatro vezes que o circo veio a Portugal, só à primeira vez é que não fui. Já conhecia pela televisão e felizmente os espectáculos que vieram têm sido pouco transmitidos.

Os números com trapézio e elásticos foram espectaculares. Aqui ficam alguns vídeos. O primeiro é do duo de trapézio, um dos mais bem conseguidos do ponto de vista da imaginação e ousadia. Durante a apresentação só perto do fim é que percebi que elas tinha cabos de segurança. Realmente tinha achado estranho quando começam a balançar os colegas no chão terem retirado o colchão. No vídeo é lá para o minuto cinco.



A forma como este número acaba foi espectacular. Infelizmente não encontrei um vídeo de melhor qualidade.



Como é habitual, as duas partes principais de palhaços contam com a participação de espectadores. Neste número há mímica, humor, está claro, e beatbox. Aqui ficam os vídeos.











Para além do espectáculo fui vendo, antes e no intervalo, as pessoas e os técnicos do circo. Quanto aos técnicos senti alguma inveja. Eles não sobem ao palco, mas fazem parte do espectáculo. Já é a segunda vez que sinto este desejo que participar numa organização daquelas, a um grupo assim. Todos têm um papel a desempenhar. Acho graça aos operadores de holofotes que antes do começo sobem lá para cima e só saem no fim.

Desde criança que sempre gostei de circo, sobretudo a parte dos malabarismos e acrobacias. Os números com animais nunca me cativaram. É por isso que gosto tanto do Cirque du Soleil. A minha mãe diz que em pequeno eu dizia que queira ser palhaço. Não me lembro desse desejo. Lembro-me sim e querer ser trapezista, mas gordinho como era, e ainda sou, com pouco gosto pelo exercício físico não passei do sonho.

Por fim quero falar do reverso da medalha. Ao olhar para as pessoas, senti-me sozinho. Fui sozinho, não tenho com quem ir a estas coisas. Vi poucas pessoas sem companhia enquanto o espaço ia enchendo. Vi casais, famílias com crianças. Na fila à minha frente estava uma família com pais, filho adolescente e, acho eu, avós. Dei por mim a sentir tristeza por não ter o meu pai ao meu lado, tal como aquele miúdo tinha. Não consegui lembrar-me da última vez em que estivemos assim, se calhar nunca aconteceu. Chegámos a ir ao circo no Coliseu dos Recreios, quando era criança. Um dos males da doença dele é eu já tr dificuldade em lembrar-me como ele era antes. Tenho medo de vir a esquecer definitivamente.

Quando cheguei a casa, a minha mãe estava pouco disponível para ouvir-me falar do que vira e rira. Tem um peso tal em cima, que por vezes não consegue ver para lá disso.

Enfim, dei por bem gasto o dinheiro do bilhete, mas a minha vida não mudou por causa do espectáculo...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Raiva



No filme Se7en a personagem do Brat Pitt na opinião do psicopata representava o pecado capital da Ira. Hoje estou num estado psíquico que me faz sentir próximo dele. A raiva é algo que vive em mim. Quem convive comigo deve ficar admirado com esta afirmação. De aparência e estilo de vida sou um exemplo de calma, mas cá dentro vive um furação de raiva e frustrações.



Por a raiva ser um estado quase permanente, não acredito na eficácia da catarse. Não acredito nos cuidados paliativos que vêm das pausas de descompressão, das quebras na rotina, nos divertimentos, nos momentos bem passados. Tudo isto alivia, mas não cura. Eu não quero sentir raiva, irritar-me tão facilmente como às vezes acontece. Quero viver de uma forma simples, sem medos.



Uma grande parte da sociedade sobrevaloriza o orgasmo. O prazer não anula a raiva. O momento não compensa a eternidade.

Felizmente a raiva, como tudo em mim, é cíclica. Nem sempre tem os níveis de hoje. Uma parte dela, sei de onde vem. A doença do meu pai. Hoje estou assim porque tive que alterar um pouco da minha rotina para evitar encontrar o meu pai na cozinha. Agora se lhe dirijo a palavra é motivo para todo o tipo de insultos. Não posso dizer para fazer uma pequena coisa, que começa a chamar-me nome, já não há limites. Tantos travões que tenho que ter para não o agredir, fosse um estranho e o furação rugiria bem alto. Onde está a caridade?



Mas sou humano. Sou fraco e a música serve de anestesia. Hoje tem sido esta a minha banda sonora. A raiva dos outros alivia-me e o desabafo também.

Espero que não vos contagie.

sábado, 6 de março de 2010

Ponto da situação

Para os meus leitores habituais deve-se notar um certo silêncio meu. Pela primeira vez falhei uma reflexão de domingo. O que se passou foi uma conjugação de factores. O neurologista do meu pai receitou-lhe um anti-psicótico no intuito de controlar-lhe os episódios de agressividade, mas o efeito foi quase catastrófico. O meu pai não tinha alucinações, nem ficava tão confuso que procurasse fugir de casa. O efeito deste medicamento provocou-lhe isso. Como é uma pessoa naturalmente teimosa foi um inferno. Parámos o medicamento e os dias seguintes foram piores. Passou duas ou três noites, nem sei bem, sem dormir. No fim do episódio ele esteve uma noite inteira o dia seguinte a andar cá em casa da sala para o corredor, do corredor para a cozinha, à procura de uma saída. Estivemos o tempo todo com os estores fechados e a porta da casa fechada à chave.

Andámos desesperados. No domingo passado para além de não ter tido tranquilidade mental para preparar as leituras do dia, esteve a chover à hora de ir à missa habitual. Fui à seguinte, mas isso baralhou-me a rotina de escrita aqui e o ânimo não estava para esforços.

Peço desculpa.

Hoje estou a escrever cedo porque o meu pai fez barulho à seis da manhã e acabei por despachar-me mais depressa. Estou aqui a escrever, enquanto a minha mãe foi à praça. Vamos ver como o dia de hoje corre. Desde que ele não fique obcecado com voltar para a casa da infância, está tudo bem.

(só publico agora porque fui ao supermercado)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Lágrimas em forma de palavras numa noite 25 de Dezembro

Peço desculpa pela linguagem que vou usar

Este Natal está a ficar marcado por ser o contrário do que devia ser. A nossa pequena família está a ficar desvirtuada num dos vários aspectos que caracterizam um família. Nestes dias não tem havido uma refeição passada em paz, tranquila, sem raiva, nervos ou gritos. A família está a desfazer-se.

Passo a explicar. Não posso dizer nada que o meu pai chama-me cabrão (a minha mãe fica irritadíssima e ofendida por mim), chama-me cão, já me chamou paneleiro. Ameaça-me bater, atirar-me com o que apanha à mão. No jantar de hoje foi àgua. Não chegou a atirar. Por acaso estava a concordar com ele, mas isso não deixou de irritá-lo. Ontem foi assim ao almoço e ao jantar. Hoje o mesmo.

Não há refeição que não tenha que interromper para ir fazer xixi. Leva um tempão para chegar à casa de banho. Muitas vezes tem feito para o chão ou no bidé, ou nos dois lugares e mais nas calças. Não vale a pena chamá-lo à atenção, só iria originar mais um momento de gritos e insultos.

Já começou a insultar a minha mãe. Aperta-lhe os braços, anda com o braço esquerdo todo dorido. Parte-me o coração vê-la a chorar.

Fizemos um bolo ontem de tarde. Ajudei e saiu a pior coisa que alguma vez fizemos. Usei um adoçante que não era indicado para bolos. Programei o forno para aquecer por cima e por baixo. Erro. Devia ser só por baixo. Não cresceu o que devia.

Mesmo a comida que ficou boa, não pôde ser saboreada por causa das complicações do meu pai. Não consegue, ou quer, comer achegado à mesa e invariavelmente cai comida para o chão. O sítio dele parece uma estrumeira. Como tem que sair para ir à casa de banho pisa aquilo.

Nós fazemos o que podemos, mas cuidar de uma pessoa assim tão conflituosa, teimosa e desconfiada, dá cabo do juízo de qualquer um.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lamento

Isto de ter um doente de Alzheimer em casa é muito fatigante. Ainda por cima porque o meu pai não me deixa fazer nada a ele para ajudar a minha mãe. Ele está em constante conflito comigo.

Não me deixa medir os diabetes, pôr-lhe os pingos na vista, dar-lhe xarope ou qualquer coisa que seja para comer ou beber. E para aceitar tem que ser à custa de muita persuasão e paciência.

Não me deixa ajudá-lo a vestir-se, pois tem alguma dificuldade por vezes. Não aceita nada do que digo, por mais inocente e simples que seja. Tudo o que digo é mentira.

Vive no passado. Muitas vezes sou o irmão e como este não foi à escola, eu sou um burro. Quando me vê faz uma de duas coisas: chama-me nomes usando palavras estranhas (alfaquete é a mais usada), por vezes com adjectivos inesperados (extraordinário, por exemplo).

Como a cabeça dele não funciona bem, tem acontecido molhar-se com urina cada vez que vai à casa de banho. Comprei-lhe umas fraldas cuecas. Pois não descansou enquanto não as despiu.

Hoje cuspiu-me água quando eu estava a arrumar a mesa de jantar. Ah, a água é outro problema e luta. Ele tem os rins bastante doentes, devia beber muita água, já que a diálise seria um pesadelo ainda maior, pois diz que não tem sede.

Peço desculpa pela lamuria, mas precisava falar. E nem disse metade.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Minhas lágrimas são bits (uns e zeros em sangue)




No ano passado, dia 23 de Abril, o meu pai foi operado às cataratas (é triste constatar que colecciona maleitas). Passei a noite com ele na clínica. Foi a primeira directa que fiz. O meu pai falou a noite toda, não consegui pregar olho. Mas o pior aconteceu depois quando voltou para casa. Durante uns quatro a cinco dias tínhamos que pôr gotas nos olhos de hora em hora. Ele não queria, perguntava porquê, não acreditava que tinha sido operado, sentia uma impressão nos olhos e queria esfregar lá. Um inferno. Para, ao menos, termos a noite mais calma começámos a dar-lhe um medicamento que o médico lhe receitou para o acalmar. A primeira vez que tomou foi um choque para mim. Num minuto estava normal, no seguinte estava a apagar-se. Mas tivemos que lhe dar.

Um mês depois queiramos que ele fosse fazer análises e não lhe demos a metade do comprimido que andava a tomar à noite. Amanheceu a vomitar, com os diabetes altíssimos. Levámo-lo para o hospital e passou lá noite amarrado à cama, querendo ir embora. De noite caiu lá, ficou com um galo na cabeça. Uma tristeza. Só nessa altura é que li com atenção a literatura do medicamento. Era um anti-psicótico que cria habituação e é normal aquele tipo de sintomas. O meu pai não se aguentava em pé. Parecia ter tido um AVC, mas não teve.

Por causa disto não lhe damos nenhum anti-psicótico, só Valdispert e chá de tília ao deitar. Na noite passada nada disso funcionou. A minha mãe não dormiu um minuto e ele também não. Hoje estava de rastos. Eu? Eu sinto-me culpado por não ter dado conta de nada. Dormi quase oito horas esta noite! Sinto-me culpado porque não consigo aliviar o sofrimento dela. Sinto culpa por não conseguir chorar. Sinto culpa por me sentir impotente. Sinto culpa por não conseguir explicar à minha mãe os ensinamentos do frei Ignacio Larrañaga sobre o abandono. Sinto culpa por não estar a recorrer a todos os santos ou só a um para que o meu pai se cure. Sinto culpa por estar a despejar para aqui os meus sentimentos negativos. Sinto culpa por me sentir só, a fé devia ajudar-me a não me senti assim. Sinto culpa também por isso.





PS: Cheguei ao título depois do texto e admito que fui um pouco dramático demais. Peço desculpa.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Considerações sobre as férias



(Uso este vídeo por causa para palavra holiday, por favor vejam nela, se quiserem, o sentido de férias e não de feriado)

Tenho que confessar que não me sinto como a maioria das pessoas, se é que consigo saber o que os outros sentem, mas pelo menos sinto-me diferente daquilo que vejo as outras pessoas agirem e o que dizem.

Já leram o livro de Hermann Hess “O Lobo da Estepes”? Apesar de gostar muito de felinos, identifico-me mais com este lobo. Há algo em mim que não aceita o comum do relacionamento social. Se não fosse católico, estaria num caminho perigoso anti-social, anarca radical, talvez mesmo em franca autodestruição.

Assim o lobo anda adormecido, mas há momentos em que quase assume o controlo. As férias são um desses momentos. Tenho dificuldade em gostar das férias. Sim, é triste. Tanta gente suspirando por uns dias de férias e vem este aqui dizer que não gosta de gozá-las.

Normalmente quando começo a apreciar estes dias, eles acabam. Isto explica-se bem. Sou um animal de rotinas. Durante o ano inteiro tenho uma rotina, horários e tarefas. Chego as estes dias e tudo muda. Posso acordar mais tarde, mas isso baralha as horas para comer. Isso não seria problema se os meus pais mudassem a rotina deles, o que não acontece.

Nunca tivemos férias fora do nosso ambiente familiar, ou seja em locais alugados. Sempre fomos para casa de família ou para a nossa na terra do meu pai. Isto significa que a minha mãe sempre teve que fazer a comida e cuidar da “lida da casa”. Isto não são férias. Em criança eu não tinha consciência disso. Sofria só com a mudança de rotina. Em adulto sofro ao perceber que eu tenho férias, que mudo de ambiente e rotina, mas ela não, já para não falar da rotina.

Nestes dias estou de férias. Não saímos de Lisboa. Não vale a pena irmos à terra do meu pai, com o gato e tudo, só por uma semana. Para mais que começo a ter dúvidas se o meu pai está em condições para viagens de cinco horas.

Tinha a esperança de passar estes dias escrevendo e passando o tempo, mas surgem sempre coisas para fazer. Uma delas é pintar a casa. Preferia estar no emprego às voltas com as contas e o planos de poupança de custos.

Outra facada no meu coração é perceber que não conseguiria estar o dia todo a escrever. Umas duas horas e vá lá. A porcaria da net está sempre a tentar-me. Passear pela cidade? Tenho pouca vontade, pode haver calor, pode haver chuva, tenho que comer de tantas em tantas horas, mais vale não ir, não gosto de ir sozinho, não gosto de ir acompanhado. Aarrgghhhh...

Conviver com o meu pai também não é fácil. Está sempre a hostilizar-me. Todo o que digo serve de motivo para me chamar mentiroso. As refeições começam a ser difíceis, pois ele mete-se no digo à minha mãe, atribui coisas que ela diz a mim, temos que repetir muitas vezes que houve um avião que caiu no mar e que ninguém sobreviveu, não quer tomar os remédios, não quer beber água, deixa cair comida no chão e diz que somos nós. De manhã não é melhor. Anda perdido pela casa à procura da roupa e diz que a roubei. Não me deixa ajuda-lo a vesti-la. Não posso dizer para beber água, ou chá, nem dar-lhe uma peça de fruta para lanchar (questiona se lavei as mãos e mesmo que vá lavá-las, quando regresso já se esqueceu).

Hoje levantei-me mais tarde do que os dias de trabalho e quando me despachei fui fazer a meia hora de oração com aprendei nas Oficinas de Oração, para mim é melhor que seja de manhã. Nessa hora a minha mãe aproveitou para ir à praça. Pois durante a meia hora, que nas férias poderia ser maior, o meu pai andou da sala para o meu quarto com uma lengalenga, que aprendeu na infância, a meter-se comigo. E pensei, férias para quê? Para andar com os nervos em franja? A minha mãe é um ser humano extraordinário, com uma resistência e paciência memoráveis. Ela aguenta isto vinte e quatro horas por dia, todos os dias.

Quero pedir desculpa a quem teve a paciência de ler isto, mas o meu reino é mesmo muito imperfeito.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Os meus porquês

Há vários anos que me debato com a dúvida: devia seguir a vida de sacerdócio ou religiosa, ou não? Como já disse, ou penso ter dito anteriormente, acho que já passou a altura para ir por aí. É claro que há histórias de vocações tardias, mas se neste momento alguém me propusesse: vem para o seminário; e teria que recusar.

Começando pela razão mais fácil de dar, digo que os meus pais precisam de mim. O meu pai com Alzheimer, a minha mãe cuidando dele 24 horas sobre 24 e não indo para nova. Ambos estão dependentes de mim, não tanto para lhes ajudar no dia a dia (embora se o meu pai deixasse, eu poderia ajudar muito mais) mas como um apoio para os momentos difíceis. Nunca senti esta responsabilidade como um peso (talvez só nos momentos de depressão, mas esses não contam), cada vez mais encaro-a como um acto de amor. O que seria deles sem mim? Sou eu trato das relações com o banco, com as finanças, com a farmácia. Cada dia que passa vejo a minha mãe a entender cada vez menos as notícias que ouve e vê na comunicação social. Se eu não estivesse perto para explicar-lhe o que seria dela? Mesmo assim fica alarmada...

(Há uma sensação que tenho e que me preocupa. Vivermos num mundo repleto de informação. Já repararam na quantidade de mal-entendidos que acontecem? Com minha mãe isso acontece de vez em quando. Até que ponto a comunicação social está a ser clara na exposição do que comunica?)

Outra razão para ficar como estou é a minha convicção de ser incapaz de ser um bom orador. Admito ter facilidade em escrever, mas a facilidade fica por aí. Dizer o mesmo oralmente afigura-se-me impossível. Na escola sempre foi um tormento para mim ler em voz alta. E expor opiniões? Pavoroso. Fico logo desconfortável, corado (mesmo se não for visível, fico com calor na cara). Só de pensar nisso já estou a ficar com as maçãs do rosto quentes. Enfim, esta minha timidez, acanhamento, mazela psicológica, torna-me num péssimo candidato ao sacerdócio? Talvez por isso a ideia de ficar fechado num mosteiro seja mais atraente.

Pode-se dizer que para ser sacerdote não são as nossas qualidades ou defeitos que contam, mas sim o nosso amor a Jesus. Aí está outra razão. Sinto que o meu amor a Deus não é o suficiente para tal. Tenho feito uma caminhada de crescimento. A minha abordagem à fé teve que ser pelo lado intelectual. O meu caminhar é lento e cheio de dificuldades. Não sou uma pessoa de paixões, apaixonada ou apaixonante. Isto parece entrar em contradição com a minha reflexão da Quaresma passada. Uma das minhas tentações é querer ser perfeito, ser reconhecido, ser amado. É o oposto daquilo que se espera de um sacerdote, que deverá ser alguém disposto a amar se reconhecimento, que se entregue ao serviço.

Todas a três razões podem ser facilmente combatidas. As três juntas e mais alguma preguiça, arrogância, muito egoísmo, falta de fé e a ilusão de que através da escrita compense este meu não, eu justifico perante mim próprio o persistir neste caminho.

Normalmente quando chego a este ponto no raciocínio paro e entrego nas mãos de Deus o meu passado, presente e futuro. A Ele nada é impossível e quem sou eu para deslindar o mistério que o projecto Dele para todos nós. Vai na volta Ele quer que eu seja exactamente isto que sou. O que tenho que fazer é mudar a perspectiva de análise da questão. Na minha vida actual, sou ou não fiel a Deus? Até que ponto nesta existência monótona e apagada Ele é o centro?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sentimento de culpa

Tenho saudades do meu pai.

Tenho um sentimento de culpa por ter dificuldade em lembrar-me de como ele era antes da doença. O Alzheimer tanto afecta a memória do doente como da família mais próxima. Estou tão submerso com a personalidade distorcida actual, que a anterior, a verdadeira parece um mito, um sonho vago quase esquecido.

Tenho saudades de ser o filho, de ter o apoio e a protecção do pai. Tenho saudades de receber carinho e ele era bem carinhoso e brincalhão. Era alguém com quem podia conversar, com quem podia aprender qualquer coisa. Agora só recebo agressões. Ele está em constante conflito e competição, demasiado infantil.

Queria refugiar-me nas boas recordações, mas... não me lembro e do que me lembro são reflexos, cintilações do presente. Sinto culpa por não me lembrar. Sinto culpa por no futuro só conseguir guardar recordações de sofrimento... pode ser que então já esteja fora deste mar que me sufoca.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sinais de Deus

Sexta-feira passada recebi um boa notícia no trabalho, notícia inesperada e digna de festejo. Quando cheguei a casa esperava alegrar a minha mãe, mas nada disso aconteceu. Ela estava ainda em estado de choque. Nós temos uma vizinha doente e a minha mãe foi lá ver como estava e perguntar se queria comer alguma coisa. Demorou-se uns dez minutos. Como não ia demorar fechou a porta só com o trinco. Quando regressou não encontrou o meu pai em lado nenhum. Assustou-se muito. Ouviu vozes do lado de fora. Foi ver e descobriu o meu pai acompanhado por dois vizinhos regressando a casa. O meu pai, vá-se lá saber porquê, foi apanhar o elevador do outro lado e ficou lá preso. Os vizinhos tiveram que accionar o elevador manualmente.

A doença do meu pai atingiu já o estádio de sair de casa desnorteado. Estamos com mais um problema. Agora fechamos à chave a porta, antes tínhamos só uma tranca, pois preocupava-nos quem entrava e não quem saía. Tenho que pensar seriamente em contratar apoio profissional para ajudar a minha mãe, se ela já está bastante presa a casa... o que será daqui para diante?

Este foi um primeiro sinal – ter maior cuidado com o meu pai. Outro sinal foi que não devo sobrevalorizar as boas notícias, pois podem desviar-me do meu caminho. Deus parece estar a dizer: “Atenção jota, o essencial não é o conteúdo da boa notícia, mas sim o que vais fazer com ele”. Agradeço a Deus o aviso, mas preferia que isso não envolvesse o meu pai e a minha mãe.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Agora sim o assunto

E ele é o que me levou a comprar um portátil, tendo ainda um pc a funcionar, como agora se pode comprovar, já que estou a escrever nele.

A motivação principal foi o meu pai. Ele padece de uma doença demencial, talvez Alzheimer, já com algum avanço. Comporta-se como uma criança. E sabe-se lá porquê eu sou um motivo para ele embirrar. Tudo o que digo é mentira. Se estou a ver televisão e chega à sala é muito provável que vá meter-se comigo e isso significa dar-me pequenos empurrões, fazer cócegas, que de cócegas só têm o nome, pois aleijam, se estou sentado, pode querer apoiar-se em mim e querer tapar-me o nariz, sei lá, uma infinidade de pequenas coisas que moem o juízo.

Quando ele vai se sentar os problemas não acabam, pois se estou a ver algum programa ou filme estrangeiro começa a implicar que não entende o que dizem, porquê que vieram para cá, que a televisão só dá coisas que não prestam, enfim se quero estar sossegado e atento, não posso.

Por fim, ultimamente tenho notado que ele não compreende que o que se passa na televisão não real, ou seja, para ele aquele vidro é uma janela, literalmente e se há tiros e distúrbios, eles podem vir para cá. Isto é motivo de tensão para o meu pai e depois não dorme de noite, não sabe porquê, mas os nervos estão lá.

Isto aconteceu recentemente quando numa noite estive a ver alguma cenas do Matrix Reloaded, as de acção, pois passou a noite toda agitado e no dia seguinte levantei e deparei-me com a cena de ele andar à procura da roupa para pôr dentro de um saco, para voltar para a casa dele, a casa da sua juventude.

Como tenho um gravador de dvd, vou gravando para o disco interno os programas que quero ver, mas como a maioria é estrangeiro e podem ter cenas de acção, nada sito posso ver na sala. Assim, como pensava em vir a ter internet em casa (e isso poderá ser um assunto para mais tarde) decidi comprar um portátil com leitor e gravador de dvd. Passo os programas para um dvd rw e visiono-os no portátil.